Lutas inglórias

Por fabiosaraiva

diego-casagrandeDona Joana recebeu de herança do companheiro com quem vivera os últimos anos um pequeno terreno na periferia. Ficou sabendo do imóvel por acaso, em conversa no velório com uma cunhada distante. Humilde, passou a vida trabalhando por salário mínimo. Mãe de três filhos, viu a possibilidade de finalmente construir a casa própria e ter um fim de vida mais tranquilo. Acontece que bem no meio do terreno havia uma árvore, que apesar do tronco fino e já meio apodrecido, não podia ser cortada. Era lei, disseram a ela, que ficou surpresa.

Achava que esse tipo de proibição valia apenas nas florestas. Na prefeitura, conversou com meio mundo e, mesmo oferecendo plantar outras cem mudas de árvores, não teve jeito. Decidiu visitar vereadores. Da maioria ouviu que eles também achavam aquilo um absurdo, mas que não mexeriam na lei porque não queriam protestos em frente à Câmara. Planto cem árvores, insistia ela. Pela lógica de dona Joana, gerariam mais oxigênio do que apenas uma.

O terreno, onde não se podia construir nada, acabou virando um estorvo. A pobre senhora passou a receber carnês de IPTU para pagar e multas do departamento de lixo, pois o local virara depósito de tudo o que não prestava. Do alto de sua ignorância, dona Joana tentou argumentar várias vezes que, se o terreno era imprestável para construir, não poderiam cobrar imposto. Que nada.

Ninguém lhe dava ouvidos e os carnês continuavam chegando. Então, a aposentada tomou a decisão de cortar a árvore por conta própria. Com a motosserra emprestada de um vizinho, juntou força nos braços velhos e em alguns minutos botou a árvore abaixo. Não tardou e surgiram fiscais da prefeitura para multá-la. Um vizinho que não queria construções ao lado de casa fez a denúncia. No local, os homens acharam um ninho de passarinho no chão e, embaixo de um dos galhos, um filhote de canário da terra. Dona Joana havia cometido crime ambiental, um tipo inafiançável segundo a lei.

Depois disso respondeu processo, gastou com advogado e acabou tendo de pagar um dinheiro que não tinha, mas juraram na Justiça que iria para instituições de caridade. E após muitos anos tentando, a senhora morreu de desgosto, sem ter a casa própria, devendo o IPTU do terreno e deixando dívidas para os filhos.

Moral da história: há lutas que são inglórias.

Diego Casagrande é jornalista profissional diplomado desde 1993. Apresenta os programas BandNews Porto Alegre 1a Edição, às 9h, e Ciranda da Cidade, na Band AM 640, às 14h.

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