Se entregar ou resistir? A encruzilhada de Lula diante da ordem de prisão

O ex-presidente tem até às 17h desta sexta para decidir se resiste ao mandado de prisão ou se vai espontaneamente à sede da PF em Curitiba.

Por Amanda Rossi, Felipe Souza e Ricardo Senra - Da BBC Brasil em São Bernardo do Campo e em Washington, EUA

De um lado, líderes de centrais sindicais, parlamentares, prefeitos e governadores petistas. De outro, uma força-tarefa de advogados. No meio, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Reunido desde o final da tarde desta quinta com apoiadores na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, Lula está sendo pressionado por correligionários a não se entregar à Polícia Federal nesta sexta-feira, em um gesto que desobedeceria ao despacho assinado pelo juiz federal Sergio Moro e que ordena a prisão do petista até às 17h do dia 6.

A BBC Brasil confirmou com o petista Rui Falcão, na manhã desta sexta-feira, que Lula não pretende ir a Curitiba para se entregar. O ex-presidente deve permanecer em São Bernardo e decidirá à tarde se vai ou não se apresentar à Polícia Federal no Estado paulista.

Ao mesmo tempo, a defesa do ex-presidente entrou com novo pedido de habeas corpus, agora no Supremo Tribunal de Justiça, alegando que seria necessário esperar o julgamento de todos os embargos do caso antes de se efetuar uma ordem de prisão.

Entre os apoiadores da resistência à prisão estão os senadores Lindbergh Farias e Humberto Costa, representantes de correntes internas do PT como a Construindo um Novo Brasil e a Mensagem ao Partido, e líderes sindicais, como o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Vagner Freitas.

O argumento principal de políticos e sindicalistas é que a prisão de Lula em São Bernardo do Campo, berço do petismo, em meio à militância do partido, poderia trazer mais visibilidade ao caso e estimular apoiadores a saírem às ruas em sua defesa.

"Essa prisão é ilegal. Mais um gesto de perseguição do juiz Sergio Moro. Então para quê se entregar numa situação dessas? Se eles querem prender, que executem a prisão. Que venham para cá. Se eles fizerem isso (prender Lula), será uma imagem que rodará o mundo", disse o senador petista Lindbergh Farias.

Um dos aliados presentes ao sindicato foi ainda mais direto ao explicar a estratégia por trás da ideia: "Ter algema, manifestação, tudo isso pode trazer um clamor internacional e ajudar na pressão por justiça". Em sua ordem de prisão, Moro foi claro em vedar o uso de algemas em Lula em qualquer situação de detenção.

Na outra ponta, estão os advogados do presidente, liderados por Cristiano Zanin Martins e José Roberto Batochio. Para essa ala, a "resistência" não é, definitivamente, uma opção.

Eles ponderam que, se o ex-presidente não cumprir a ordem de prisão, isso será visto como desobediência ou até mesmo como intenção de fuga. Esse tipo de comportamento do réu é malvisto pelos membros do Judiciário e pode acarretar em diminuição drástica das chances de sucesso em recursos futuros, seja em pedidos de habeas corpus ou requerimentos de progressão de pena e prisão domiciliar.

Os advogados de Lula dizem ainda que pretendem solicitar urgência em um processo aberto na Organização das Nações Unidas para garantir os direitos políticos de Lula. O andamento dessa ação poderia ser afetada em caso de desobediência judicial, na avaliação dos críticos da ideia.

Conhecido pelo espírito conciliador, o presidente Lula não indicou ainda qual caminho deverá seguir. Para um parlamentar do PSOL, o processo de convencimento do líder petista passará pelo tamanho da movimentação que a esquerda conseguir produzir diante do prédio azul e branco do sindicato.

"Tudo é uma questão de força política. Para ele (Lula) resistir, precisa ter greve e todo mundo vir para cá. Cinquenta pessoas é diferente de cinquenta mil. Cinquenta mil não vão enfrentar", apostou o congressista.

Presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffman não demonstrou publicamente a escolha de nenhum dos lados e disse a colegas que apoiará a decisão do líder petista, seja qual for.

Visitas

No segundo andar do sindicato, em frente a pôsteres de movimentos sociais do Brasil e da América Latina, Lula se reuniu com políticos de esquerda: a ex-presidente Dilma Rousseff, os senadores Costa, Lindbergh e Gleisi, o ex-governador do Ceará Cid Gomes (PDT), o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), os deputados Vicentinho, Paulo Pimenta e Paulo Teixeira, o pré-candidato ao governo de São Paulo Luiz Marinho (PT).

O PSOL também estava presente. O pré-candidato a presidência pelo PSOL e coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) Guilherme Boulos e seus colegas de partido Luisa Erundina e Ivan Valente também foram ao sindicato prestar solidariedade a Lula.

"A resistência democrática é válida. Se ele (Lula) decidir assim, eu vou apoiar", disse o deputado Ivan Valente, fazendo referência à corrente que pretende que Lula não se apresente em Curitiba e resista no sindicato. Para Valente, a decisão de Moro, menos de 24 horas depois do julgamento do habeas corpus do petista no Supremo Tribunal Federal e antes da apresentação dos últimos embargos da defesa no processo na segunda instância, mostra a pressa política e a arbitrariedade do juiz federal.

Apoio dos movimentos sociais

Enquanto o debate é travado internamente, o discurso uníssono para a militância que se aglutinou nas ruas do entorno ao sindicato é de resistência.

"A partir dessa casa (o sindicato), dos companheiros do MTST, dos companheiros dos movimentos sociais, nós vamos dizer: ele não vai se entregar! Venham buscar, nós estaremos esperando aqui. Venha com armas, com o que quiser, mas vai ter que enfrentar essa multidão. Aqui, não! Que venham aqui, nós estaremos aqui. Não vai prender! Repitam comigo: não vai prender!", discursou de um carro de som o presidente do sindicato dos metalúrgicos Wagner Santana.

10072507320180405222639-d6b7a426bea0e9c21286f4e71cb2e220.jpg A maior parte dos militantes reunidos em apoio a Lula eram MTST / BBC Brasil

A maior parte dos militantes reunidos em apoio a Lula é do MTST, embora haja caravanas de outros grupos em trânsito para São Bernardo do Campo a partir de Estados, como Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais. Também do carro de som, o coordenador do MTST e pré-candidato à presidência pelo PSOL, Guilherme Boulos, buscou estimular o movimento e manter a vigília.

"A nossa orientação é não arredar pé desse sindicato. Permanecer aqui e garantir com nossa mobilização que uma decisão injusta não possa se efetivar. A gente sabe da dificuldade, há companheiros que tem que trabalhar. Mas a gente quer passar orientações. Nossa disposição é não deixar prenderem o Lula, para isso temos que estar firmes, ficar aqui de vigília e não arredar pé. Pelo tempo que for necessário. (Vamos) Tentar garantir que o máximo de pessoas fiquem", disso Boulos.

Fiéis às instruções de Boulos, um grupo de manifestantes do MTST montava uma espécie de cozinha na calçada do sindicato por volta das 2 da manhã. A infraestrutura pretendia viabilizar a ocupação de grande número de pessoas no local.

Julian Rodrigues, militante da Frente Brasil Popular, que reúne diversos movimentos sociais, disse que o presidente não deve se entregar.

"É preciso oferecer uma resistência política, simbólica e pacífica. O presidente tem que ficar aqui no sindicato e, se tiver que sair, vai sair abraçado pelo povo simbolicamente com milhares de pessoas", afirmou.

O desejo é engrossado pelo secretário de comunicação do PT em São Paulo, Dheison Renan. "Eu e a grande maioria da direção do partido acha que o presidente Lula tem que ficar aqui no ABC e, se quiserem prendê-lo, que venham buscá-lo".

Por volta da meia-noite, um pequeno grupo entrou no sindicato com cobertores e colchonetes para passar a noite. Às duas da manhã Lula continuava no sindicato, cercado pelos filhos e amigos. Seu plano era dormir ali mesmo.

Militantes divididos

Em frente à sede da entidade, os militantes estão divididos. "Lula tem que se entregar para fazer o que a lei pede", diz o técnico em análises José Batista, que foi metalúrgico por 20 anos. "É um absurdo o que estão fazendo com ele. Estão fazendo que nem fazem com pobre, mandando prender, não esperaram nem embargos. Não respeitaram os direitos dele".

Antônio Carlos dos Santos, de 71 anos, metalúrgico aposentado, concorda: "Tem que se entregar porque agora não tem mais jeito. E depois recorrer para ver como faz. Prender na marra é pior". Mesmo assim, Santos não tinha intenção de deixar a porta do sindicato. "A gente dorme depois da luta. Vou ficar até quando eu aguentar". Santos carregava um porta retrato com uma foto sua ao lado de Lula, tirada recentemente no sindicato. "Eu não tinha faixa para trazer, então trouxe a foto da minha casa".

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