Por que a recuperação da economia não atenua a rejeição recorde a Temer?

Quando vai bem, a economia costuma ser aliada do governo nas urnas e nas pesquisas de popularidade. Temer enfrenta, contudo, uma situação particular, que mistura a rejeição recorde à sua administração e 'desencanto profundo' dos eleitores com o establishment político com uma retomada lenta e marcada pelo desemprego alto.

Por Camilla Veras Mota - Da BBC Brasil em São Paulo

Depois de dois anos em queda, o Produto Interno Bruto (PIB) voltou a crescer no ano passado, com alta de 1%, conforme os dados divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE. Quando vai bem, a economia costuma ser aliada do governo nas urnas e nas pesquisas de popularidade.

No entanto, os dados que mostram que a atividade está em recuperação no Brasil não têm praticamente surtido efeito sobre a rejeição recorde do presidente Michel Temer, apontada pelas pesquisas, ou sido suficientes para melhorar sua posição – ou daqueles ligados à sua administração – nas sondagens de intenção de voto.

Tanto Temer quanto seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), não têm mais do que 2% da preferência do eleitorado, de acordo com o último levantamento do instituto Datafolha, divulgado em 31 de janeiro.

Para economistas e cientistas políticos ouvidos pela BBC Brasil, o quadro se explica por um conjunto de razões, que vão desde o fato de Temer não ter sido eleito diretamente, passando pelas denúncias de corrupção envolvendo seu partido e levando em conta até a composição do crescimento em 2017, muito concentrado no agronegócio, e o nível ainda alto de desemprego.

A economia está melhor – mas para quem?

Grosso modo, metade do crescimento da economia do ano passado veio da agropecuária, pontua Fernando Sampaio, sócio-diretor da LCA Consultores – ou seja, praticamente 0,5 ponto percentual do crescimento de 1% veio do setor.

O agro responde por apenas 5% do PIB, diz Sampaio. Se contabilizada toda a cadeia – desde a logística de escoamento da produção até seu beneficiamento pela indústria alimentícia -, o peso sobe para 15%.

100217655cagedarte-00cdf6e74ea2f32390fb24f05ce3b9ec.jpg Entre 2015 e 2017 país perdeu mais de 3 milhões de empregos com carteira assinada / BBC

Conforme os dados do IBGE, esse componente do PIB cresceu 13% no ano passado, o maior percentual desde o início da série histórica, que começa em 1998.

Isso significa que parte importante do impacto positivo da "riqueza" gerada pela economia no período – criação de emprego, aumento de consumo – ficou mais concentrado no interior do que nas grandes capitais, por exemplo, onde a maioria da população vive.

"Foi um ano de recuperação bastante assimétrica", ele pondera.

O fator-chave para explicar a "sensação de crise" que ainda predomina para milhões de brasileiros, contudo, é o mercado de trabalho, acrescenta Marcel Balassiano, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

Apesar de a taxa de desemprego ter recuado gradativamente entre março, quando atingiu 13,7%, e dezembro, quando chegou a 11,8%, seu nível continua elevado.

Foram, em média, 12,3 milhões de desempregados, 12,7% da força de trabalho, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua referente a 2017. Em janeiro, conforme divulgado ontem pelo IBGE, a taxa cresceu para 12,2% – segundo economistas, o início do ano é um período em que tradicionalmente há uma procura maior por trabalho e, por isso, o desemprego geralmente aumenta.

"A taxa de desemprego é a variável econômica que mais impacta na vida da população, mais até que a inflação", ressalta Balassiano.

A economia chegou a gerar emprego no ano passado – vagas precárias, entretanto. Foram 263 mil novos postos, ainda de acordo com a Pnad Contínua, em meio a uma média de 90,6 milhões de brasileiros empregados. Desse total, apenas 34,2 milhões tinham carteira assinada, 950 mil menos do que em 2016.

De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), uma outra pesquisa que acompanha o mercado de trabalho (e contabiliza apenas as contratações e demissões com carteira assinada), mostra quadro semelhante. Em 2017, foram fechados 20,3 mil postos, o terceiro ano consecutivo de saldo negativo. No biênio 2015-2016, o país cortou 3 milhões de empregos formais.

100217656inflacaoarte-9c2650a49d4495e4143a966f64f63b28.jpg Rendimentos têm crescido em termos reais mais por causa da queda da inflação do que pelos reajustes salariais - cenário que também influencia a "sensação térmica" do brasileiro em relação à economia / BBC

"As pessoas se esquecem do tamanho do tombo", pontua Christopher Garman, diretor para América Latina da consultoria Eurasia Group.

Quem está empregado, por sua vez, tem visto a renda aumentar, mas essa alta se deve muito mais à queda da inflação, que eleva o poder de compra, do que de fato a reajustes maiores nos salários – mais um fator que tem impacto sobre a "sensação térmica" do brasileiro em relação à economia.

Em 2017, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 5,35% para 2,95% entre janeiro e dezembro. Quem teve correção do salário pelo IPCA no início do ano, por exemplo, viu os rendimentos crescerem cerca de 5%, enquanto, no decorrer do ano, o aumento dos preços foi perdendo ritmo, aumentando em menor velocidade.

Voto econômico x voto ideológico

"Quão boa tem que estar a situação para as pessoas reconhecerem que ela está boa de fato?", pondera o cientista político Adriano Codato, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

No ano passado, ele lembra, o salário mínimo – com "valor simbólico importante" – teve a menor correção em 24 anos, passando de R$ 937 para R$ 954, a conta de luz aumentou, com reajuste no valor das bandeiras tarifárias, e a gasolina ficou mais cara.

"A melhora da economia ainda não aparece na ponta. Os indicadores macroeconômicos não necessariamente se refletem na vida das pessoas."

100217651gettyimages623516110-c6a7eee9dc0b6ef22335b7e800d75a16.jpg "As pessoas se esquecem do tamanho do tombo", diz Garman, da Eurasia / Getty Images

A correlação entre economia e preferências eleitorais é observada na grande maioria dos países, diz Codato, em maior ou menor grau.

No Brasil, um país de renda média, muito desigual e com parcela significativa da população vulnerável, a maioria escolhe seus candidatos em função do momento em que vive, da percepção que tem do governo, ele afirma, referindo-se ao que a ciência política batizou de teoria do voto econômico.

O chamado voto ideológico, acrescenta ele, que é coordenador do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil, fica restrito ao topo da pirâmide – funcionários públicos e classes mais altas – e aos jovens. "São votos de extremos em vários graus."

Nas eleições presidenciais de 1998, exemplifica Codato, o PSDB venceu com folga no Nordeste e reelegeu Fernando Henrique Cardoso, que ainda colhia os frutos da implementação do Plano Real e de programas assistenciais. Quatro anos depois, contudo, após uma crise forte em 2002, o Nordeste votou no PT e elegeu Lula pela primeira vez.

Eleitores irritados

Além da recuperação lenta, o país atravessa em 2018 um momento histórico particular, diz Fiona Mackie, diretora regional para a América Latina da consultoria Economist Intelligence Unit (EIU).

"O Brasil vive um verdadeiro terremoto político", ilustra a cientista política, para justificar por que a "regra" de que o pragmatismo costuma prevalecer entre os eleitores quando a economia vai bem – levando-os a optar por candidatos governistas ou de centro – pode não funcionar neste ano.

A mistura de recessão com a multiplicação dos casos de corrupção que se tornaram públicos nos últimos anos despertaram nos brasileiros revolta contra a classe política. "Existe um grau de desencanto profundo com o establishment político", ressalta Garman, da Eurasia.

Para ele, a situação é exacerbada por um outro fator: a frustração de uma nova classe média – forjada na primeira década dos anos 2000 – que não viu suas demandas por serviços públicos de melhor qualidade serem atendidas e que assistiu à recessão diminuir seu padrão de vida.

"O que o eleitor quer não é a manutenção do status quo e nem a agenda econômica desse governo", diz o cientista político. "Temer é mal visto de forma geral, não é carismático, não foi eleito diretamente, assumiu com índice de aprovação já muito baixo. Há uma relação bem fundamentada (entre economia e eleições), mas essa recuperação não deve favorecer um candidato governista", reforça.

Sinais melhores

100219499pibarte-d1ec9b6bcee91296a7a7c6c8e6308847.jpg No último trimestre do ano passado, economia cresceu 2,1% / BBC

Ainda assim, os números do PIB referentes ao último trimestre do ano passado trazem sinais melhores.

Ajudado pela queda da inflação e dos juros, o consumo das famílias ganhou fôlego e avançou 2,6% sobre o quatro trimestre de 2017 e 0,1% em relação ao trimestre imediatamente anterior – se firmando como potencial indutor do crescimento em 2018.

A indústria teve seu melhor desempenho no ano, com alta de 0,5% em relação aos três meses imediatamente anteriores e de 2,7% sobre o mesmo período do ano passado, e os investimentos esboçaram reação – cresceram 2% na comparação com o terceiro trimestre e 3,8% sobre outubro-dezembro de 2016.

O retrato da economia no fim do ano passado, diz Balassiano, do Ibre-FGV, reflete a composição da reação que se espera para este ano. Com um crescimento mais disseminado, a estimativa da instituição aponta crescimento de 2,9% para o PIB de 2018.

"A perspectiva para este ano é de desafogo", diz Sampaio, da LCA, que projeta alta de 2,8% para o produto. Entre os fatores que favorecerão a economia nos próximos meses estão a inflação ainda comportada, os juros baixos – que devem cada vez mais aparecer nas taxas cobradas à pessoa física e estimular o consumo – e a perspectiva de que o governo possa investir um pouco mais, ajudado pelas surpresas positivas com a arrecadação.

O desemprego, entretanto, que em geral reage de forma defasada ao crescimento, deve se manter alto. Depois de atingir 12,2% em janeiro, a taxa recuaria apenas para 10,9% no fim de 2018 e para 10,1% no fim de 2019, conforme as estimativas do Ibre-FGV.

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