Governos Kirchner estão no centro da trama do caso Odebrecht na Argentina

Por Nicole Lallee

planeta-odebrecht-seloO presidente da Argentina, Mauricio Marci, inaugurou no dia 11 de janeiro o primeiro de seis “trechos” de um gasoduto em Córdoba, na região central do país. É uma obra da Odebrecht, que confessou ter pago US$ 35 milhões em propinas aos ‘hermanos’ de 2007 a 2014.

O próprio Macri já tem um parente e um membro de sua gestão salpicados pelo escândalo, mas o caso deve atingir em cheio o governo da antecessora, Cristina Kirchner, que comandou o país durante todo o período da corrupção narrada pela construtora.

No país, o noticiário ainda se ocupa com desdobramentos da “Rota do dinheiro K”, um caso de 2013 que apontou corrupção e favorecimento a empresários próximos de Cristina e do ex-marido, Néstor Kirchner, morto em 2010.

Conforme novos detalhes da Lava Jato vêm a tona, porém, cresce o interesse dos argentinos. “Vai levar algum tempo até que o escândalo Odebrecht chegue ‘às ruas’, mas vai chegar. É questão de tempo”, diz o jornalista Federico Rivas Molina, do El País.

O acordo

Toda a documentação do caso Odebrecht se revelará a partir de 1º de junho, quando vence o prazo de seis meses de confidencialidade do acordo de leniência que o grupo firmou com Brasil, EUA e Suíça no fim do ano passado.

Até lá, espera-se que a Odebrecht busque acordos individuais com os países (quase todos latino-americanos) corrompidos. “Nós incentivamos que a própria empresa vá aos países diretamente e apresente nesses países as provas dos crimes praticados lá”, explica o procurador do MPF (Ministério Público Federal) Paulo Roberto Galvão.

Na Argentina, o grupo já se sentou à mesa com as autoridades por um acordo que conserve seus contratos, mas a negociação deve ser longa. “As convesas são muito preliminares”, diz Germán Emanuele, diretor da ONG Transparência Internacional na Argentina, chamada para acompanhar os diálogos.

O jornalista Molina, porém, aposta que o trato vai sair. As obras que a Odebrecht toca hoje são os gasodutos de Córdoba – cuja primeira etapa foi inaugurada por Macri – e o túnel de trem subterrâneo de Sarmiento, que liga a capital Buenos Aires à região metropolitana.

“São obras politicamente sensíveis e que impactam muitas pessoas”, diz Molina. “Para o governo, é melhor deixar a Odebrecht falar do que suspender as obras. Teriam que licitar novamente, e esse túnel já era prometido há décadas, até que finalmente se executa agora”, avalia.

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Dois lados da moeda

A Odebrecht atua na Argentina desde 1987, mas só fez duas obras – uma hidrelétrica e uma estrada – até a chegada de Néstor Kirchner ao poder, em 2003. Desde então foram mais nove contratos.

Cristina e Macri têm sido citados em lados opostos: ela pelo lado do poder público, e ele por sua ligação com empresários envolvidos.

Pelo governo, um alvo de  suspeita é o longevo ex-ministro Julio De Vido, que comandou o Planejamento por todos os 12 anos de kirchnerismo e mediava os encontros oficiais entre Cristina e Marcelo Odebrecht.

Hoje deputado, De Vido aparece em investigação sobre a estação de tratamento de água do rio Paraná de Las Palmas, da Odebrecht, e pela venda de uma empresa que pertencia à Petrobras na Argentina. De Vido já foi ao Twitter negar recebimentos ilegais “da Odebrecht ou de qualquer outra empresa”.

Mesmo antes de ser citada formalmente, Cristina vem adotando o lema de que a melhor defesa é o ataque. Em entrevistas após deixar a Casa Rosada, a ex-presidente tem lembrado os víncluos de Macri no caso.

O atual chefe de inteligência (equivalente à Abin) de Macri, Gustavo Arribas, recebeu quase US$ 600 mil em uma conta na Suíça do operador Leonardo Meirelles, velho conhecido da Lava Jato no Brasil, e já mudou duas vezes sua versão sobre o recebimento. Meirelles teria dito, em delação, que o repasse foi feito a pedido da Odebrecht.

Já Angelo Calcaterra, um primo do presidente, era dono da Iecsa, empresa que compõe com a Odebrecht o consórcio do trem de Sarmiento. O contrato teria sido conseguindo às custas de propina a membros do governo Kirchner. Na última quinta-feira, Calcaterra anunciou ter vendido a empresa.

Mecanismos anti-corrupção são precários

Nem todos os países têm leis de delação premiada – instrumento que impulsionou a Lava Jato no Brasil –, e a Argentina era um deles até outubro de 2016.

Recém-aprovada, a “Lei do arrependido”, deve fortalecer o combate à corrupção, ao lado da nova lei de acesso à informação, colocada em vigor na mesma época. “O combate à corrupção não foi eficaz nos últimos 15 anos. Houve um forte retrocesso na luta contra a corrupção desde antes dos governos Kirchner. Os órgãos de controle foram desarticulados”, conta Germán Emanuele, da ONG Transparência Internacional.

Investigado também no caso Odebrecht, Ricardo Jaime, um ex-secretário de Transportes, foi detido em abril de 2016 por suspeitas na compra de trens. Como destacou a ONG, foi o primeiro membro dos governos Kirchner preso por corrupção.

Outro lado

A Odebrecht não respondeu ao Metro Jornal até a noite de domingo (19). Nas outras reportagens da série, o grupo tem afirmado que “já possui entendimentos avançados com alguns países da América Latina para esclarecer os atos praticados” em cada local.

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