‘País teve taxas de crescimento acima da média internacional’, diz Dilma ao Metro

Por fabiosaraiva

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a presidente e candidata ã reeleição Dilma Rousseff, do  PT | Ueslei Marcelino/Reuters a presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff, do PT | Ueslei Marcelino/Reuters

Com 40% nas pesquisas de intenção de voto Datafolha e Ibope divulgadas nesta quinta-feira, a presidente Dilma Rousseff (PT) chega à reta final da campanha com lugar garantido no segundo turno, e até mesmo chance de liquidar a fatura no domingo. Nem sempre foi assim. Depois da trágica morte do então candidato do PSB, Eduardo Campos, em 13 de agosto, ela se deparou com a repentina subida da sua substituta, Marina Silva, nas pesquisas. Como estratégia de reação, a petista, que já tinha vantagem sobre o outro candidato de oposição, Aécio Neves (PSDB), intensificou os ataques à ex-senadora. Deu certo, e a presidente chega às vésperas do pleito com 16 pontos percentuais à frente de Marina (e a 19 do tucano), pelo Datafolha. No segundo turno, Dilma vence seja qual for ao adversário. Em entrevista concedida por e-mail ao Metro Jornal, Dilma nega que a campanha tenha descambado para o vale-tudo. “Não discutimos questões pessoais, mas, na democracia, temos todo o direito de discutir propostas e concepções.” A entrevista com a canditada do PT é a última da série com os presidenciáveis, na qual também foram entrevistados Marina e Aécio.

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Em 2015, o próximo presidente poderá rever o atual sistema de reajuste do salário mínimo. Eleita, a senhora manterá a correção pela inflação do ano anterior mais a variação do crescimento de economia?
Posso garantir que no próximo governo, nós vamos manter tudo o que está dando certo. E esse é o caso da política de valorização do salário mínimo. Desde o início do primeiro governo Lula, nós já reajustamos o mínimo em 71% acima da inflação, o que é inédito no país. Eu não concordo com aqueles que acham que a raiz da inflação é a política de valorização do salário mínimo. Houve governos em que o salário mínimo era baixíssimo e a inflação era muito alta, bem mais alta do que nos nossos governos, meu e do Lula. O que nós estamos fazendo é apenas recuperar o poder de compra do salário mínimo, que vinha perdendo valor fazia muito tempo. O aumento do poder de compra do salário mínimo e dos salários em geral contribuiu fortemente para a redução das desigualdades sociais no país, para a criação de um amplo mercado interno de massas e para o fortalecimento da economia brasileira.

O relatório de receitas e despesas do Ministério do Planejamento prevê que o crescimento do PIB neste ano ficará em 0,9%. Confirmado o dado, o país terá o pior resultado desde 2009. Em sua avaliação, quais fatores resultaram nessa retração da economia nacional e como reverter esse quadro?
No período 2011-2013, o Brasil teve taxas de crescimento acima da média internacional. A Europa, numa situação bastante difícil, está crescendo pouco acima de zero, e alguns países ainda têm taxas negativas de crescimento. Nós crescemos 2,5% no ano passado. Mas, com a crise financeira mundial, vários países ficaram em dificuldades e reduziram suas compras, o que prejudica nossas exportações e afeta o PIB. Eu considero essa situação passageira. Vários países, incluindo os europeus, estão enfrentando a crise cortando gastos, desempregando e reduzindo salários. Nos países do G-20, o número de desempregados já passa de 100 milhões. Nós fomos por outro caminho: prosseguimos garantindo e ampliando o número de empregos, valorizando os salários e fazendo investimentos pesados em infraestrutura social urbana, energética e logística (meios, terminais e sistemas de transportes). Ou seja, garantimos bases sólidas para alicerçar um novo ciclo de desenvolvimento.

Em sua primeira campanha, em 2010, a senhora chegou a defender a autonomia do Banco Central. Agora, critica a proposta de sua adversária, Marina Silva (PSB), que propõe a autonomia, e já chegou a afirmar que a medida cria um quarto poder no país. Por que mudou de opinião de 2010 para cá?
Veja bem, eu não mudei um milímetro de opinião. O que eu critico na minha adversária não é proposta de ‘autonomia’ e sim de ‘independência’ do Banco Central. Autonomia operacional eu defendi e pratico. A diretoria do banco tem autonomia para perseguir as metas da inflação. Mas independência, não. No Brasil, pela Constituição, só há três poderes independentes e harmônicos: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O Banco Central não é um poder, é uma instituição do Estado. E aqui eu faço um alerta: o eleitor não tem como acreditar na política econômica proposta pela candidata Marina porque, se o Banco Central se tornar independente, poderá fazer tudo ao contrário do que pretende o presidente, eleito pelo voto popular. Ele não teria que dar satisfações a ninguém. Além de defender essa independência, a candidata propõe menor atuação dos bancos públicos, o que levaria o País a ter de enfrentar juros mais altos, recessão e forte diminuição do crédito para agricultura, moradia popular, transporte público, infraestrutura, indústria e setores estratégicos que precisam de empréstimos a juros mais baixos e com prazos mais longos. O setor financeiro precisar ser regulado por um governo democraticamente eleito. Esta é uma das grandes lições da crise atual.

A previsão é de que o próximo presidente terá que adotar um pacote de medidas impopulares logo nos primeiros meses de 2015, com destaque para o aumento da gasolina e da energia. A senhora irá adotá-las ou manterá os preços sob controle do governo?
Há quem diga que vai haver um tarifaço na energia elétrica e que os preços administrados estão contidos. Isso é um absurdo. Em relação à energia elétrica, apesar de as condições climáticas serem atípicas atualmente, um estudo do Ministério de Minas e Energia prevê reajuste moderado para o ano que vem. Desde o início do primeiro governo Lula, em 2003, nós aumentamos consideravelmente a capacidade instalada de geração de energia e também as linhas de transmissão. O sistema construído nos últimos 12 anos deu estabilidade ao fornecimento de energia e nos capacita a equilibrar rapidamente a demanda, tão logo as condições climáticas se revertam. Quanto à gasolina, o aumento dos preços na refinaria desde 2011 foi de 31,5%, enquanto o IPCA ficou em torno de 23%. Ou seja, houve aumento real, acima da inflação. E ainda há quem defenda um tarifaço, atrelando o preço do petróleo no Brasil ao do mercado internacional. Não faz sentido. O mercado de petróleo funciona assim: há uma rusga entre os Estados Unidos e qualquer país do Oriente Médio o petróleo dispara, há uma briga ali naquela região da Europa que vai comprometer o fornecimento de gás, o preço dispara. Isso nada tem a ver com a nossa realidade. Portanto, não há razão para o atrelamento a preços internacionais. Temos de garantir a competitividade do conjunto da economia.

Último relatório da FAO (órgão da ONU para alimentação e agricultura) colocou o Brasil na lista de países que superaram o problema da fome. O estudo aponta que o programa Bolsa Família foi um dos principais responsáveis pelo resultado. Reeleita, a senhora pretende elevar o valor do benefício e quais medidas podem ser adotadas para garantir a manutenção dos resultados obtidos nos últimos por meio dos programas de transferência de renda?
O Bolsa Família, programa que mais contribuiu para a redução das desigualdades sociais no País, terá correções periódicas dos valores, como tem tido, para evitar a corrosão do seu poder de compra. Eu tenho muito orgulho de uma coisa: essa é a primeira geração, no Brasil, em que muitas crianças nasceram e cresceram sem fome, com a proteção do Bolsa Família. Os programas sociais dos últimos 12 anos retiraram 36 milhões de brasileiros da pobreza extrema, reduziram em 82% a população considerada em situação de subalimentação e se tornaram a porta de entrada para o mundo da escola e do trabalho. Com isso, o país pôde sair do Mapa Mundial da Fome em 2014, segundo relatório global da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO). No próximo mandato, vamos consolidar um país de direitos e oportunidades para os mais pobres ampliando as conquistas já feitas, com o reforço dos programas sociais e a inclusão produtiva rural e urbana, seja no mercado formal de trabalho, seja via economia solidária ou empreendedorismo.

A demanda pela reforma política ganhou força após os protestos de junho de 2013. À época, foi prometido um esforço do Congresso para colocar o tema em discussão, mas nada mudou. A senhora é favorável à redução do número de partidos políticos, fim das coligações proporcionais e a adoção da cláusula de barreira? Quais mudanças avalia como essenciais para aprimorar o sistema político?
Ninguém, por mais bem intencionado que seja, consegue mudar as condições e as regras do jogo político no Brasil se não houver uma reforma política profunda. Uma reforma que preserve a ética, que garanta a transparência e uma melhor gestão dos recursos públicos, que diminua a influência do poder econômico nas instituições, que dê vez e voz ao povo. Precisamos discutir como será o financiamento das campanhas, como deve ser a representação parlamentar, se vão ser 30 partidos, o que eu, pessoalmente, considero um número excessivo. Mas para que haja reforma política, vamos precisar de um plebiscito, para que o povo diga claramente que mudanças deseja. Se não, ninguém terá força para aprovar uma reforma política. É uma questão que eu acho que é da sociedade brasileira, da nação brasileira, da Constituição dessa nação.

A senhora foi ministra de Minas e Energia e presidente do Conselho de Administração da Petrobras. Nunca recebeu informações sobre os desvios cometidos pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa? Nunca houve desconfiança sobre as operações realizadas por ele?
Se eu soubesse que ele estava envolvido em atos de corrupção, teria demitido imediatamente. Eu não compactuo, não compactuei na minha vida toda, e jamais o farei com práticas de ilícito, práticas criminosas de corrupção. Eu tenho uma trajetória política que mostra isso. Eu tirei o ex-diretor não porque tivesse recebido alguma denúncia, mas sim porque não tinha nenhuma afinidade com ele.

Durante os últimos anos, a partir do governo Lula, houve maior aproximação do governo brasileiro com  a Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba e o chamado mundo árabe. Mas, em oposição, há sinais de um afastamento em relação à Europa e aos EUA, até mesmo do Chile. Em seu discurso na ONU, defendeu dialogo com o Estado Islâmico. Qual o caminho da diplomacia brasileira?
Nós não trocamos de parceiros e sim incorporamos novos parceiros. Acho que diminuir o papel da América Latina, da África e da Ásia é uma temeridade, diminuir o papel dos Brics é um descompromisso com a realidade, desconsiderar os Estados Unidos e a Europa é outro descompromisso com a história. Sobre o meu discurso na ONU, em nenhum momento defendi o diálogo com o grupo autodenominado Estado Islâmico. Defendi o diálogo com as nações e a intermediação da ONU para a resolução de conflitos. Disse literalmente que o uso da força é incapaz de eliminar as causas profundas dos conflitos. Isso está claro na persistência da questão palestina, no massacre sistemático do povo sírio, na trágica desestruturação nacional do Iraque, na grave insegurança na Líbia, nos conflitos no Sahel e nos embates na Ucrânia. A cada intervenção militar não caminhamos para a paz mas, sim, assistimos ao acirramento desses conflitos.

Como a senhora avalia a campanha eleitoral? Entramos em um ‘vale-tudo’?
Não acho que a campanha tenha descambado para o vale-tudo. A minha campanha não discute questões pessoais, por exemplo. Mas na democracia, nós temos todo o direito e até o dever de discutir propostas e concepções. Enquanto estivermos discutindo propostas, programas de governo, estaremos dentro do que se exige de qualquer candidato para ajudar o eleitor a se decidir. Nós estamos confrontando o nosso governo com o governo do PSDB e os resultados são muito melhores. Estamos confrontando nossas propostas com as propostas de outros candidatos. Não fizemos críticas a nenhuma questão que não esteja explicitada nos programas de governo dos demais candidatos e em suas entrevistas públicas e nas de seus principais assessores. Nós não poderíamos, por exemplo, deixar de alertar a população para o risco que representa, para os brasileiros, ter um Banco Central independente. Eu não sou responsável por ela ter uma posição de manhã e outra de tarde, por exemplo.

O sistema do Mais Médicos pode ser adotado para a área da Educação? Serão ampliados programas como o FIES e ProUni? Há uma intenção de ampliar o número de universidades federais em um segundo mandato?
A Educação é uma obsessão nossa. Ter estabelecido, em lei, que 75% dos royalties do petróleo do Pré-sal e 50% do Fundo Social sejam destinados à Educação, é algo que vai permitir continuar o que nós já estamos fazendo e também dar um grande salto. Vamos transformar uma riqueza que um dia vai acabar, que é o petróleo, em riqueza permanente, que é a Educação. E isso mudará o País. O cálculo é de que os recursos oriundos do Pré-sal cheguem a R$ 1,3 trilhão em 35 anos. Com esses recursos, vamos ampliar o número de escolas, reforçar programas de inclusão educacional como o FIES e o Prouni, e sobretudo investir fortemente na melhoria das condições de ensino, na reciclagem dos professores, na melhoria das remunerações, enfim, na qualidade do ensino. Os royalties serão o nosso passaporte para o futuro. Teremos escola de tempo integral e o Pronatec que já matriculou até hoje 8 milhões de brasileiros, que fazem cursos de qualificação de graça, vai matricular, no novo  mandato, mais 12 milhões. E vamos continuar com o Ciência sem Fronteiras, com mais 100 mil bolsas de estudo para mandar os melhores estudantes do Brasil para as melhores universidades do mundo.

Como o governo federal pode atuar efetivamente na área de segurança no país? Repasses de investimentos para os Estados ou uma intervenção direta por parte da Polícia Federal?
A Constituição Federal estabelece que a segurança pública é uma atribuição dos governos estaduais. Mas o governo federal não pode mais se contentar em ser apenas um repassador de recursos para os estados. Uma segurança pública fragmentada só interessa ao crime organizado, que atua coordenadamente em todo o território nacional. Por isso, eu estou propondo mudar a Constituição, para que o governo federal possa, junto com os governos estaduais, criar um modelo de segurança integrada. Esse modelo já foi testado e aprovado durante a copa. Criamos os Centros Integrados de Comando e Controle e, neles, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional de Segurança e as polícias estaduais, civis e militares, com apoio das Forças Armadas, atuaram de forma coordenada em ações de prevenção, inteligência, planejamento e policiamento ostensivo. Os resultados foram tão positivos que não tenho dúvidas: é este modelo que deve ser adotado para que o Brasil comece a ter uma segurança pública mais eficiente. Não estamos partindo do zero, nem de uma teoria qualquer, mas de uma experiência que já foi testada e aprovada.

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