Filho de Jango fala sobre a exumação do corpo do ex-presidente e da investigação para verificar se ele foi envenenado

Por fabiosaraiva

joaogoulartfilhoQuais são suas lembranças  da tomada do poder pelos militares em 1964?

Eu era muito novo. Tinha 7 anos. Lembro de muita tensão. Não foi um dia comum. Fomos arrancados da Granja do Torto [residência oficial), em Brasília. Nos levaram para Porto Alegre.

No dia 13, o comício da Central do Brasil completou 50 anos. Outro político teria força para realizar um ato como aquele?

Seria preciso muito apoio popular. Meu pai tinha. Esse é o desafio do atual governo. A gente vê tentativas de criminalizar as manifestações. Não podemos chamar uma dona-de-casa que leva panela para protestar de subversiva. Não vivemos mais em uma ditadura. O político que conseguir capitalizar esses movimentos vai ser bem-sucedido.

Hoje, é possível analisar um programa como o das 

reformas de base proposto por João Goulart? 

Participei de um encontro sobre o comício na Central do Brasil. Um líder social afirmou que a reforma agrária proposta pelo meu pai era a melhor para o Brasil. Acredito que muito daquilo não foi feito. O PT diminuiu a desigualdade social com o Bolsa Família, mas mesmo assim tem gente que não aprova o programa. A ideia da reforma bancária também era ótima. Os bancos ganham bilhões e enviam quase todo o dinheiro para suas matrizes. Não somos contra o lucro. É preciso que haja investimento em educação e saúde. Quando meu pai assinou a lei que limitava as remessas de lucros para o exterior, foi derrubado pelos militares.

Como avalia o debate sobre a ditadura militar? 

Fico feliz com o esforço para lembrar essa época. É importante rever a morte de Jango, já que ele é um bem cultural brasileiro, como todos os presidentes.

É preciso exumar o corpo de Jango para investigar as causas de sua morte?

Quando ele morreu [1976], não houve necropsia na Argentina. Para que o corpo fosse enterrado no Brasil, foi exigido que o caixão estivesse lacrado. Em 2007, pedimos ao MPF que fossem  investigadas as condições de morte. Isso começou antes da Comissão da Verdade.

Desde quando há a suspeita de envenenamento?

Desde o enterro tínhamos essa dúvida. Sabíamos de casos parecidos. A questão é que, com o passar do tempo, a exumação pode ser inconclusiva. Existem substâncias que, após mais de 30 anos, não podem ser detectadas. Por isso a necessidade de convocar os agentes norte-americanos que teriam participado do caso. A legislação dos EUA permite isso. Eu estou fazendo de tudo para que isso aconteça.

João Goulart fazia comentários sobre os dias de  exílio no Uruguai?

Ele dizia que o exílio é um invenção do demônio. Você é um morto-vivo. Apesar de estar próximo ao seu país, não pode passar a fronteira e encontrar amigos e família. Mas, no princípio, achávamos que era só mais uma “quartelada”, como tantas outras que aconteceram no Brasil.

Todo esse resgate histórico acontece no mesmo ano que o Brasil recebe a Copa do Mundo. Como era a relação do seu pai com o futebol?

Ele sempre gostou de futebol. Era torcedor do Internacional, chegou a jogar nas divisões de base do colorado. Meu pai sempre torceu muito pelo povo brasileiro, sempre lutou por benefícios para a população. Mesmo no exílio, ele continuou vibrando com a Seleção.

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