A pequena cidade alemã que luta para não se tornar símbolo neonazista

Ostritz tem alguns milhares de moradores, mas viu recentemente suas ruas receberem novos visitantes: extremistas de direita.

Por Hazel Sheffield - De Ostritz, na Alemanha

À medida que neonazistas se dirigem à pequena Ostritz, no leste da Alemanha, atraídos por eventos lá realizados, um outro contigente de pessoas também tem se planejado para ir à cidade – mas para fazer oposição ao extremismo.

Em outubro, Eva Hauptfleisch voltou à cidade de origem de sua família pela segunda vez em 2018 para isso. Em abril, se juntou a cerca de 3 mil pessoas para manifestar-se contra o festival Shield and Sword (SS, na tradução livre "Escudo e espada"), que marca o aniversário de Adolf Hitler; no fim do ano, ela voltou à casa dos pais para fazer oposição a um outro festival de música organizado e frequentado por neonazistas.

A cidadezinha vem se transformando em um ponto de encontro para radicais de direita. Um reflexo disto é que, em 2017, nas eleições nacionais, mais de 30% da população votaram pelo partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

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"Por que Ostritz?", perguntou um jornalista a Thorsten Heise, líder do Partido Nacional Democrata (NPD), também da extrema-direita.

"Por que não?", respondeu Heise. "Não há muito acontecendo na Saxônia (Estado em que fica Ostritz). Estamos tornando a política mais vívida".

Mas muitas outras pessoas estão determinadas a não deixar Ostritz se tornar o cartão-postal do neonazismo.

Cicatrizes de 1989

A Saxônia se tornou um berço para ideias de extrema-direita na Alemanha.

Essa região já fez parte da Alemanha Oriental e boa parte de sua população ainda vive os efeitos do colapso da União Soviética, em 1989.

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Quando fábricas fecharam, milhares foram para o oeste do país – incluindo os pais de Eva Hauptfleisch, que se dirigiram a Frankfurt, onde ela nasceu posteriormente.

Muito dos que ficaram perderam seus meios de subsistência, enquanto seus novos compatriotas da Alemanha Ocidental assumiram negócios e compraram casas na região.

Vinte e oito anos depois deste divisor – ou reunificador – de águas, muitos habitantes da antiga Alemanha Oriental estão chegando à aposentadoria na linha da pobreza.

A decisão da chanceler alemã, Angela Merkel, de abrir as portas para um milhão de refugiados em 2015 incendiou os ânimos no leste, onde temeu-se maiores perdas para a população local.

Eva descreve a expressão desta situação em Ostritz, com 2,4 mil habitantes.

"A cidade estava dormindo", diz. "Muitas pessoas estão deprimidas porque perderam trabalho e não têm a oportunidade de ir para outro lugar".

'Festival da paz'

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No mesmo fim de semana do festival neonazista, Eva Hauptfleisch e seus colegas organizaram um Festival da Paz.

"Temos de agir agora para preservar nosso sistema democrático, que está sendo ameaçado por neonazistas, extremistas de direita e seus apoiadores dentro dos governos e das assembleias estaduais", discursa Michael Schlitt, organizador do evento.

"Não devemos ceder a eles nenhum espaço – nem um único metro."

Do outro lado da cidade, centenas de policiais armados cercam o festival neonazista no Hotel Neisseblick.

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Lá dentro, homens e mulheres jovens circulam entre estandes vendendo CDs de bandas populares "hatecore" (uma junção das palavras "hardcore" e "hate", que significa ódio), cujas letras invocam imagens de uma Alemanha devastada pela guerra e "defendida por homens patriotas".

Camisetas exibem slogans com mensagens nazistas mal escondidas.

Tatuagens de símbolos proibidos, como a suástica, são cobertas com fita adesiva.

Dono de hotel comemora

Hans-Peter Fischer, dono do hotel, diz estar feliz que os neonazistas tenham retornado a Ostritz, já que seu festival gera receita.

"Era a única maneira de fazer vendas aqui", diz ele, ressaltando que não recebeu nenhuma indenização quando sua propriedade foi prejudicada por uma inundação.

Quatro eventos similares estão planejados no hotel em 2019.

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Mas a cidade vai se opor a eles, promete a prefeita de Ostritz, Marion Prange.

De noite, ela se junta a alguns habitantes que acendem velas e circundam uma praça, cantando enquanto a polícia observa.

"O trabalho não está concluído, mas neste curto período de tempo aprendemos muito que podemos passar para outras comunidades", diz ela.

"Mostramos que há limites. Nós acordamos."

Colaborou na reportagem: Tobias Wolf

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