Menos princesas, mais personalidade: quem são as heroínas subversivas de livros que as crianças amam

Nova biografia da sueca Astrid Lindgren, criadora da personagem Pippi Meialonga, revela uma história de vida repleta de desafios que ajudaram a moldar uma das primeiras personagens infantis a mostrar que meninas podiam ser qualquer coisa além de apenas princesas.

Por Hephzibah Anderson - BBC Culture

Muito antes de o livro Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes deixar de lado as princesas de conto de fadas e substituí-las por mulheres inspiradoras como Ada Lovelace e Amelia Earhart, uma heroína fictícia idiossincrática estava se rebelando contra o sexismo na literatura infantil, cativando jovens leitores em todo o mundo e mostrando que havia mais de uma maneira de ser uma menina.

Com suas tranças e sardas vermelhas, ela desdenhava das convenções sociais e tinha personalidade de sobra. Ela era independente e forte – tão forte que conseguia erguer um cavalo com uma mão. Ela também possuía um estoque de moedas de ouro e, aos nove anos de idade, morava sozinha com seu macaco e cavalo, navegava em alto-mar e até dançava com ladrões. Não espanta saber que meninas de diversas gerações quiseram ser ela – algumas ainda querem.

Seu nome é Pippi Meialonga (ou Pipi Longstocking, no título original), e como revela uma nova biografia fascinante, sua criadora, a sueca Astrid Lindgren, poderia facilmente estar entre as estrelas de Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes.

Mãe adolescente solteira, defensora declarada dos direitos das mulheres e das crianças, ela levantava diversas bandeiras, do ambientalismo ao pacifismo. Não foi um caminho esperado e nem fácil para a filha de um fazendeiro criada em uma comunidade religiosa e conservadora na década de 1920 na Suécia. E ainda assim este se tornou o caminho de Lindgren, como mostra Jens Andersen no livro Astrid Lindgren: A Mulher Por Trás de Pippi Meialonga.

A pequena Astrid era uma contadora natural de histórias e herdou o dom da escrita da mãe, que escrevia poemas quando tinha tempo.

Quando adolescente, Astrid experimentou o cross-dressing (ato de usar roupas ou objetos associados ao sexo oposto) e descobriu o jazz. Aos 17, ela se tornou estagiária em um jornal local e, quando tinha 18 anos, seu chefe de 49 anos, casado e pai de sete filhos, a engravidou.

"Meninas são tão bobas. Ninguém nunca havia estado seriamente apaixonado por mim antes, e ele estava. Então, é claro, eu achei aquilo emocionante", ela afirmou mais tarde.

Quando seu filho nasceu, ela foi forçada a deixá-lo com uma família adotiva. Desolada, tentou ganhar a vida em Estocolmo como estenógrafa e foi só em 1931, quando se casou, que finalmente conseguiu ter de volta a guarda dele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Lindgren trabalhou na censura do correio para o neutro governo sueco. Era, segundo ela, um trabalho "sujo", mas à luz otimista do tempo de paz. Quando sua filha (nascida em 1934) estava de cama com pneumonia, a autora inventou um contraponto alegremente desafiador ao fascismo.

Pippi é subversiva e de espírito livre, uma garota que quebra os padrões. Ela também é solitária e fica difícil acreditar que a personagem teria sido a mesma se o início da vida adulta de Lindgren não tivesse sido tão tumultuado.

Feminismo na ficção infanto-juvenil

Lindgren escreveu muitos outros livros, roteiros e ensaios, aparecendo regularmente na mídia e, finalmente, se tornando uma marca global. No entanto, é Pippi que a faz ser lembrada até hoje. Desde que a primeira parte das aventuras da personagem foi lançada, em 1945, o livro nunca deixou de ser publicado e permanece internacionalmente amado.

Hoje em dia, a literatura infantil é muito malfeita no que diz respeito a personagens femininos.

Alguém se lembra daquele vídeo que a equipe de Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes lançou? Com o título "Se você tem uma filha, você precisa ver isso", ele chamava a atenção para o preconceito de gênero mostrando uma mãe e filha removendo de uma estante todos os livros que não tinham personagens masculinos (três), todos os livros sem nenhuma mulher personagem (141) e aqueles nos quais as personagens femininas eram princesas – deixando a prateleira quase nua.

Pippi, no entanto, não é o único ícone feminista na ficção infanto-juvenil – e nem foi o primeiro.

Quase meio século antes de Pippi, L. Frank Baum usava o jornal que editava em Aberdeen, na Dakota do Sul, nos Estados Unidos, para animar as sufragistas americanas, as mulheres que lutaram pelo direito ao voto. Quando escreveu seu conto, agora clássico, O Maravilhoso Mágico de Oz, sua heroína feminina, Dorothy Gale, havia sido moldada por suas crenças, bem como por suas observações de mulheres pioneiras que viviam a vida nas Grandes Planícies americanas.

Como tornados e bruxas malvadas teriam emocionado Nancy Blackett! Ela é o que uma vez teria sido chamada de tomboy (menina que gosta de atividades associadas a homens). Uma marinheira esperta vestida com camisa, calções e boné pirata, ela também é filha de uma mãe solteira, o que pode explicar seu dom para a liderança e sua desenvoltura.

Nancy aparece em 9 dos 12 romances que compõem a série Swallows and Amazons, de Arthur Ransome. A personagem fez os leitores da década de 1930 saberem que a vida doméstica feminina não era sua única opção.

Ela provavelmente se daria bem com Petrova Fossil, uma das heroínas de Sapatos de Balé, de Noel Streatfeild. Abandonada pelo pai adotivo junto com suas irmãs, Pauline e Posy, ela descobre com as meninas que uma irmandade poderosa e solidária as rodeia. Ajudadas por várias mulheres, elas encontram aventura e independência financeira por meio do balé e da atuação – quer dizer, pelo menos Pauline e Posy; Petrova era mais feliz dentro de um carro e acaba se tornando uma pilota.

Sapatos de Balé foi o primeiro romance da Streatfeild e, cerca de 80 anos depois, continua popular – J.K. Rowling, autora de Harry Potter, é uma das fãs da história.

Pippi, a pioneira

A menina Madeline, dos livros de Ludwig Bemelmans, sabe como tirar o melhor de uma situação não favorável. Apesar de ser sempre alvo das acusações da Senhora Clavel no internato parisiense coberto de vinhas onde mora, Madeline ama neve e gelo, não tem medo de ratos e solta um "buh" para os tigres de dentes afiados no zoológico. Nem uma inesperada cirurgia de apendicite derruba a menina – e ela depois exibe sua cicatriz com tanto orgulho que se torna invejada pelas colegas.

De acordo com o neto de Bemelmans, Madeline foi baseada no próprio autor, que sempre se sentiu como um estranho. Mas o que há de frescor em Madeline é que ela não quer ser uma pessoa que pertence já a um grupo estabelecido, ser mais uma ali. De fato, em um grupo de 12 garotas que passam seus dias como uma equipe de nado sincronizado, ela se destaca sozinha.

Virginia Lee Burton nasceu apenas uns dois anos depois de Astrid Lindgren, mas sua infância não poderia ter sido mais diferente. Criada em uma colônia de artistas californianos, ela fundou a sua própria em Massachusetts, onde também escreveu e ilustrou uma série de livros, incluindo Katy and Big Snow (Katy e a Grande Neve).

Sua heroína homônima é corajosa e totalmente determinada. Ela é "muito grande e muito forte e pode fazer muitas coisas". Katy também é um trator que ajuda a salvar a cidade de uma tempestade de neve.

E estamos falando de uma história surgida em 1943, bem antes da locomotiva Thomas, de Thomas e Seus Amigos, abordar a questão de desigualdade de gênero no ano passado.

Embora os dois filhos de Lee Burton fossem o público-alvo de todas suas histórias, as valentes máquinas que invadem suas páginas são invariavelmente femininas – há também a escavadora a vapor Mary Anne e o bondinho Maybelle. Fortes, incansáveis e independentes, essas personagens femininas mostram aos leitores mais pequenos que os meninos não tinham o monopólio da força e da grandeza.

Mas a verdadeira igualdade também confere o direito de tornar um personagem também menos impressionante. Isso é o que torna a heroína de 1964 de Louise Fitzhugh tão interessante. Harriet, de A Pequena Espiã, é sarcástica, rancorosa e acha que pode tudo. Ela é a anti-Nancy Drew (famosa detetive adolescente da literatura americana), que prefere se vestir com um jeans e um cinto de ferramentas a usar suéter e agradar aos outros.

No entanto, ao contrário de tantas heroínas clássicas que vieram antes dela, Harriet não é forçada a se arrepender de suas escolhas. É claro que há mais histórias e fofocas do que investigação na trama e ela termina o livro tendo sido treinada de maneira delicada, mas também cheia de falhas e sem sentir remorso.

Os pontos fortes e conquistas das mulheres da vida real que moldaram nosso mundo são algo que meninas e meninos devem ler e sonhar. Mas a ficção conta seus próprios contos únicos, e embora sempre haja trabalho a ser feito, se revirarmos as estantes acharemos cada vez mais heroínas memoráveis para inspirar jovens leitores de todos os gostos.

As existências de persoangens como Sally J. Freedman, de Judy Blume, Matilda, de Roald Dahl, Tracy Beaker, de Jacqueline Wilson, e Rosie Revere, de Andrea Beaty, agradecem em grande parte a Pippi e às suas amigas pioneiras.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.


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