Dez anos após união contra crise, G20 se reúne enfraquecido por "antiglobalismo"

Líderes mundias se encontram em Buenos Aires para discutir guerra comercial sem o espírito de cooperação que marcou ascensão do bloco.

Por Mariana Schreiber - Enviada especial da BBC News Brasil a Buenos Aires

Há exatos dez anos, em novembro de 2008, os principais líderes mundiais se reuniram em Washington, capital americana, para coordenar uma reação à crise financeira global. Foi o primeiro encontro em que o G20 – grupo que reúne 19 grandes economias mais a União Europeia – passou de um fórum de ministros de finanças para um encontro de chefes de Estado e governo.

A cooperação entre os principais países desenvolvidos e emergentes, materializada em compromisso com medidas de estímulo ao crescimento em detrimento de ações protecionistas, é apontada como fundamental para conter a enorme turbulência iniciada com a quebradeira de bancos americanos. Ao voltar ao Brasil, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o encontro mudava "a lógica das decisões políticas".

"Finalmente, todos os países se colocaram de acordo de que nós precisamos tomar decisões coletivas para evitar que uma tomada de posição de um país possa prejudicar outro país", disse também, na ocasião, o ex-presidente, hoje preso pela Operação Lava Jato.

Uma década depois, a lógica parece ter mudado de novo. Num momento em que ganha força o discurso nacionalista e "antiglobalista" capitaneado pelo presidente americano, Donald Trump – e reverenciado também pelo futuro mandatário brasileiro, Jair Bolsonaro -, o G20 volta a se reunir nos próximos dois dias na Argentina sem o espírito de solidariedade que marcou sua ascensão como principal fórum geopolítico, desbancando o mais restrito G7.

Também está em mutação o papel do Brasil no grupo. Enquanto em 2008 o País despontava, junto com os demais integrantes do BRICS (Rússia, Índia, China e África do Sul), como promessa de locomotiva para recuperação mundial e tinha a liderança carismática de Lula, agora o país enfrenta uma longa crise econômica e chega à cúpula com um presidente impopular e em fim de mandato, Michel Temer.

A expectativa é de mais uma passagem apagada do presidente brasileiro, que não tem encontros bilaterais relevantes na agenda durante a cúpula – apenas uma conversa com o primeiro-ministro de Singapura, Lee Hsien Loong, convidado a participar pela Argentina embora o país asiático não integre o G20.

Já Bolsonaro, ainda em recuperação da facada que levou em setembro, durante a campanha presidencial, não atendeu ao convite para acompanhar Temer a Buenos Aires. Também não há previsão de participação do futuro ministro das Relações Exterior, Ernesto Araújo, que apoia o ideário trumpista contra o "globalismo" – visto pelo brasileiro como uma estratégia da esquerda para suprimir valores nacionais tradicionais que passa pelo controle ideológico de órgãos multilaterais como a ONU.

Guerra comercial

Dessa vez, o tema mais urgente na mesa de discussão do G20 é a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo – Estados Unidos e China. O encontro bilateral previsto entre os presidentes dos dois países, Trump e Xi Jinping, tende a ofuscar a cúpula em si, embora haja pouca esperança de que trará uma solução para o aumento de barreiras comerciais.

O americano – que teve como um de seus slogans de campanha o "América Primeiro" ("America First") -, desde julho tem elevado impostos sobre importações chinesas, acusando o país asiático de adotar práticas comerciais ilegais e passar por cima dos mecanismos de litígio da Organização Mundial do Comércio (OMC).

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Os EUA já aplicaram tarifas sobre US$ 250 bilhões em produtos chineses e ameaçaram taxar outros US$ 267 bilhões. A China, por sua vez, fixou tarifas sobre bens americanos no valor total de US$ 110 bilhões.

O temor de economistas ao redor do mundo é que essa disputa acabe reduzindo as exportações e a produção nas duas maiores economias do mundo, causando uma desaceleração global. Os efeitos globais sobre as taxas de câmbio e preços – seja pelo encarecimento de produtos sobretaxados, como também pela desvalorização de commodities devido à expectativa de menor demanda – são imprevisiveis.

Também estará no foco do G20 a necessidade de reforma da OMC. Os Estados Unidos têm bloqueado a nomeação de novos juízes para o órgão de apelação, espécie de corte suprema dos conflitos comerciais, e ameaça deixar a organização.

"A situação do G20 hoje é muito mais precária. Trump representa uma visão internacional que enfatiza a competição", ressalta o professor de Relações Internacionais da FGV Matias Spektor, ao analisar a última década.

"Não está claro qual será a atuação do Brasil no grupo sob a liderança de Bolsonaro caso ocorra uma nova crise econômica mundial em decorrência da guerra comercial: se vai se alinhar totalmente aos Estados Unidos ou adotar uma posição mais pragmática", observa.

Brexit e 'climão' entre líderes

Spektor ressalta, porém, que o problema não está localizado apenas nos Estados Unidos e a crescente tensão com a China. O Reino Unido, cujo então primeiro-ministro Gordon Brown teve papel fundamental na inclusão dos países emergentes na mesa de discussão da crise financeira em 2008 e 2009, hoje está enfraquecido sob a liderança de Theresa May por causa da implementação do plano de saída da União Europeia, o Brexit, aprovado em 2016.

A Alemanha também perde capacidade de liderança diante da expectativa de troca de comando – Angela Merkel, chanceler alemã desde 2005, anunciou que não tentará a reeleição em 2021 depois que seu partido teve desempenho fraco em pleitos regionais. É possível que ela deixe o comando do país ainda antes.

Existem ainda outros focos de tensão que devem estremecer o clima em Buenos Aires. Há expectativa de um encontro entre Trump e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, líder rechaçado por outras potencias ocidentais após o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi dentro de um edifício diplomático saudita na Turquia.

Poderá também ocorrer o primeiro encontro após o assassinato entre o príncipe e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

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Já a reunião entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, está sob o risco de ser cancelada devido ao agravamento da crise entre Rússia e Ucrânia, depois que navios russos atiraram contra embarcações do país na costa da Crimeia, região ucraniana anexada pela Rússia em 2014.

"Há maior divergência no G20 hoje porque Trump está mais longe do consenso do que (os ex-presidentes americanos) Bush ou Obama já foram, assim como Putin, o príncipe herdeiro saudita, Erdogan e Xi Jinping", afirmou à BBC News Brasil John Kirton, diretor do grupo de pesquisa do G20 na Universidade de Toronto (Canadá).

"Além disso, em 2009, os líderes enfrentaram um perigo comum, claro e presente de um colapso financeiro e econômico global. Hoje, eles estão lidando com questões menores e mais lentas, como o comércio, e ainda não perceberam o perigo existencial trazido agora pelas mudanças climáticas descontroladas", acrescentou.

'Pronto para o próximo incêndio'

Apesar das dificuldades enfrentadas pelo G20, ele mantém enorme relevância no cenário global. Formado por 19 países – África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Reino Unido e Turquia – mais a União Europeia, seus integrantes representam 85% da produção econômica global, dois terços da população mundial e 75% do comércio internacional.

Para os analistas ouvidos pela BBC News Brasil, mesmo que não haja clima para grandes consensos dentro do bloco, manter sua estrutura ativa, com a realização das cúpulas anuais, é fundamental para que seja possível uma reação rápida no caso de novas turbulências graves.

Na avaliação da professora do Instituto de Relações Internacionais da USP Maria Antonieta Del Tedesco, manter ativos os canais de diálogos entre as maiores nações do planeta é o principal propósito do G20 hoje.

Ela ressalta que o diálogo diplomático multilateral é um processo lento e, por isso, nem sempre gera resultados concretos e visíveis. Ela ressalta, por exemplo, a importância do Financial Stability Board (Conselho de Estabilidade Financeira), criado em 2009 e ainda em atividade.

"No nível multilateral, o G20 continua sendo a grande novidade. Houve uma perda de importância relativa por causa das mudanças políticas nos países, mas isso não significa que está esvaziado e não serve para mais nada", afirma.

Para a professora, porém, houve uma certa perda de foco do grupo ao abraçar uma gama muito variada e ampla de agendas. A Argentina, que presidiu o grupo ao longo do último ano, estabeleceu como temas principais o futuro do trabalho, a infraestrutura para o desenvolvimento e uma alimentação sustentável.

Por causa dessa diversificação, o grupo passou a operar em dois "trilhos": um para discussões econômicas, que são conduzidas pelos ministros de finanças dos países, e outro para os demais tópicos, coordenado pelos chamados "sherpas" (no caso do Brasil, este representante é sempre um diplomata).

Em palestra no início desse mês, o sherpa australiano, David Gruen, fez uma defesa da atuação do grupo. Em fala no Instituto Lowy, ele destacou que, após a crise financeira, o foco do grupo mudou "naturalmente" para questões de longo prazo, como reformas estruturais e crescimento sustentável.

São avanços que "não aparecem nas manchetes, mas que farão diferença concreta no bem-estar das pessoas ao redor do mundo", argumentou.

Segundo Gruen, estudos como o realizado pelo instituto americano Brookings, que ouviu dezenas de autoridades envolvidas no G20, também mostram que o grupo é importante para os países entenderem melhor as perspectivas uns dos outros e saberem "para quem ligar no momento de crise".

"É claro, corpos de bombeiros são mais úteis quando há fogo. Mas eles precisam manter seu equipamento funcionando em ordem – ou, no caso do G20, manter as relações e o funcionamento da organização – para quando o próximo incêndio estourar", defendeu também.

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