Skid Row: como a maior cracolândia dos EUA se mantém há décadas "nos fundos" de Hollywood

Ao menos 4 mil pessoas vivem nas ruas dos 54 quarteirões da área conhecida como Skid Row, em Los Angeles - o dobro da cracolândia do centro de São Paulo.

Por Ricardo Senra - Enviado da BBC News Brasil a Los Angeles

"O crack bota você para cima. A heroína derruba. São drogas diferentes, bem diferentes", diz Tonya, enquanto acende o penúltimo Winston Red da carteira na ponta luminosa do cigarro anterior.

Desde os 16 anos, ela alterna momentos de intensidade e apatia pelas ruas da Skid Row, uma área de 54 quarteirões no centro de Los Angeles, a poucos passos dos cinemas e teatros da Broadway local e dos arranha-céus de vidro do centro financeiro da capital californiana.

"Minha irmã me trouxe para cá, essa era a área dela. Ela era um ano mais velha que eu e me deu a primeira droga. Era heroína", diz a descendente de mexicanos, hoje com 50 anos, enquanto ajeita uma manta empoeirada na cadeira de rodas que usa desde 2014, quando perdeu a perna direita por uma infecção vinda de uma agulha contaminada.

Pelo menos 4 mil pessoas dividem as ruas da Skid Row com Tonya – e a metade delas, estimam ONGs da região, usa drogas pesadas todos os dias.

A menos de meia hora de carro das mansões de Hollywood e da Calçada da Fama, a Skid Row reúne a maior concentração de pessoas em situação de rua dos Estados Unidos (a cracolândia de São Paulo, para efeito de comparação, reúne em média 1860 usuários, segundo um levantamento do governo do Estado publicado em 2017).

Depois de anos de predominância do crack, a heroína se tornou a droga mais popular da região, conta Santiago, que aplicou uma seringa com heroína pela primeira vez aos 13 anos. Há dez, ele dorme em uma das centenas de barracas que se aglomeram em frente a muros de transportadoras e grandes depósitos na região.

"Eu fui abusado quando criança. Eu fui para as drogas para diminuir a dor. Agora sou um viciado e preciso disso."

Ele mostra uma seringa para a reportagem e fala sobre sua rotina.

"Tem a picada do café da manhã, uma picada no almoço, uma no jantar e um picada à meia noite. Isso me faz funcionar."

'Ímã' para os mais vulneráveis

No início do século 20, a Skid Row já era conhecida por reunir trabalhadores sem emprego fixo, alcoólatras e desempregados em uma das franjas do centro da cidade. O termo (caminho de derrapagem) surgiu no século 17, associado às áreas onde trabalhadores temporários organizavam o escoamento de troncos para a produção de madeira e celulose.

Desde então, áreas urbanas degradadas, em cujas ruas se reúnem pessoas em situação precária, ficaram conhecidas nos EUA como "skid rows" – a mais famosa dos Estados Unidos é a de Los Angeles, mas há outras grandes skid rows no país, como a de Chicago.

No fim dos anos 1980, o termo ficou conhecido internacionalmente por dar nome à banda de hair metal liderada por Sebastian Bach.

Em Los Angeles, apesar do crescimento acelerado nos últimos anos, acompanhando a epidemia de opióides (analgésicos altamente viciantes e derivados do ópio, incluindo heroína) que se espalha pelos EUA, a Skid Row ganhou seu principal impulso há quatro décadas.

Em 1976, o Conselho Municipal de Los Angeles lançou um plano urbanístico que mais tarde ficou conhecido como "política de contenção". A estratégia da prefeitura consistia em concentrar em um único lugar da cidade toda a oferta de abrigos, refeições populares, ONGs de reabilitação e serviços para a população desempregada, sem moradia e com problemas de saúde mental.

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A área da Skid Row passaria a funcionar como um ímã para a população de rua da cidade, que encontraria serviços básicos apenas ali – deixando as outras áreas cidade para a população de classe média e rica.

O resultado, dizem especialistas, foi um perverso ciclo vicioso: com a população mais vulnerável nas ruas, albergues e pequenos hotéis da região, a oferta de drogas cresceu muito mais rápido do que a de empregos ou serviços de saúde.

Assim, o consumo de substâncias pesadas e a população da área explodiram – sobrecarregando as ONGs e órgãos públicos que se instalaram na região com a premissa de contê-lo.

'Eu e você divididos por uma circunstância'

"Ninguém nunca sonhou em ser sem-teto, esse não é o sonho de ninguém. As pessoas que estão vivendo nas ruas somos nós. Não são nós e eles. Só há nós. Eles são você e eu – divididos por alguma circunstância", diz Georgia Berkovich, diretora da Midnight Mission, misto de abrigo e clínica de recuperação que existe há mais de 100 anos.

Quem vê de tailleur vermelho, maquiagem pesada e cabelos escovados caminhando apressada de uma reunião para outra em um dos casarões da região pode questionar seu conhecimento de causa.

Ela própria explica. "Eu era uma criança solitária, criada por uma mãe solteira. Então, comecei a beber muito jovem. A ficar bem louca", diz, enquanto olha, do terraço da ONG, um grupo vendendo isqueiros e cachimbos para crack em uma esquina próxima.

"O que aconteceu comigo também acontece com muita gente, mas, como sou alcoólatra, isso me trouxe, aos 24 anos, para o crack."

Em 2018, ela completa 25 anos sóbria. "O que é algo grande, pelo menos para uma garota como eu", ela diz.

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Para Berkovich, o poder público erra ao se concentrar em remediar a falta de casas e o abuso de substâncias proibidas.

"Estamos tentando parar o sangramento, em vez lidar com o que causa a falta de moradia, que é nosso sistema de adoções, os sistemas prisional, educacional, de moradia, de doenças mentais, de abusos de drogas e álcool. Todas essas coisas estão alimentando a falta de moradias e precisam ser corrigidas."

Cachimbos e seringas para reduzir danos

Entre os principais desafios para os abrigos e programas sociais locais estão a "tentação" durante a processo de reabilitação, seja pela oferta e ou pela convivência com drogas pesadas, e a escolha, por alguns, de simplesmente continuar consumindo as substâncias nas ruas da área.

Para ter acesso à maioria dos programas de moradia ou desintoxicação da região, os pacientes precisam se comprometer a abandonar completamente a droga antes de iniciar o tratamento – o que afasta muitos potenciais candidatos ou gera desistências e pacientes reincidentes.

Algumas instituições, como a Homeless Health Care Los Angeles, financiada por dinheiro público e de doadores, recorrem a técnicas menos radicais, como a conhecida como "redução de danos".

Desde 1985, a ONG já reverteu mais de 400 overdoses com a aplicação de remédios, e distribuiu milhares de seringas, agulhas, kits de esterilização e piteiras para cachimbos, enquanto mantém serviços de desintoxicação, testes de doenças transmissíveis por sangue ou via sexual e encaminhamento para programas de moradia da prefeitura.

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"Não queremos que eles usem agulhas sujas ou as dividam com seus amigos, porque elas podem espalhar HIV, hepatite C e outras doenças", explica um funcionário, enquanto prepara um kit para uma jovem de menos de 20 anos com o pescoço, os braços e as pernas cobertos de cicatrizes.

Ele ressalta que a ideia não é manter as pessoas no vício, mas ajudá-los a reduzir sua exposição a doenças e overdoses enquanto eles se preparam para o processo de desintoxicação.

"Nosso serviço não depende da abstinência de drogas. Nós não tentamos subestimar os riscos potenciais delas. Ao contrário, queremos tentar reduzir as consequências negativas que surgem durante o uso de drogas injetáveis para que as metas de reabilitação sejam realistas e alcançáveis."

'Não é que eu ame minhas drogas mais que meu filho'

A BBC News Brasil conheceu Tonya, que abre esta reportagem, na saída da clínica de redução de danos. Ela havia acabado de entregar seringas usadas em troca de outras.

"Eu não peguei HIV graças a eles. Vi muita gente morrer contaminada porque não sabe usar drogas com responsabilidade."

Ela se emociona quando perguntada sobre família.

"Minha mãe veio aqui me procurar no Natal. Ela queria ter certeza de que eu estava bem e veio direto para a minha barraca, eu estava saindo quando ela estava entrado", lembra, sorrindo.

"É difícil lidar com isso diariamente. Especialmente (para) meu filho, meu pequeno menino. Eu digo a ele para não usar drogas para não terminar como a mamãe. Não é que eu ame minhas drogas mais do que ele. Eu sou viciada, entende?"

Segundo o departamento de planejamento da prefeitura, moradias e oferta de serviços de recuperação aos usuários são prioridade central para a cidade – o número total de sem-teto, incluindo regiões fora da Skid Row (como a popular Praia de Venice, que vem se tornando um novo polo) varia de acordo com estimativas oficiais e de ONGs entre 34 mil e 60 mil pessoas.

A população da cidade parece concordar com a urgência e os eleitores aprovaram, por meio de voto, a cobrança de um novo imposto sobre propriedades, que renderá US$ 1,2 bilhão para os cofres públicos – o valor será 100% destinado à construção de 10 mil moradias populares nos próximos 10 anos.

A BBC News Brasil acompanhou uma operação da polícia de LA em busca de traficantes na região e perguntou a um dos oficiais sobre as perspectivas da região na próxima década.

"Em 10 anos… eu não vejo isso melhorando. Para mim, não. Estamos aqui tentando lutar por eles e ajudá-los, mas os números estão crescendo e não há abrigo suficiente", ele responde. "Sabemos que há muitas pessoas aqui usando drogas, e tentamos lidar com isso da melhor maneira, mas não temos agentes suficientes aqui para lidar com todas as situações."

Uma colega policial aponta para a esquina. "Aquela missão ali é uma área de recuperação, você vê? E eles estão vendendo drogas bem na frente."

'Cansado de ficar cansado'

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Perto dali, Santiago leva a reportagem até a barraca azul onde dorme há 10 anos.

"Esta é minha casa na Skid Row. Eu durmo, como e uso minhas drogas aqui. É assim que vivo. Em uma barraca."

A BBC News Brasil pergunta como ele consegue dinheiro para se manter.

"Os EUA não são um pais rico para todos. Acho que há interpretação errada. No Brasil, se virem ou ouvirem que LA é rica, que tem ajuda financeira e serviços públicos para todo mundo… nao é tão simples."

O homem continua: "Mensalmente, em drogas, gasto quase mil dólares. O que eu não tenho. Mas o dinheiro vai aparecendo com a colega de material reciclável, bicos no posto de gasolina, limpeza carros ou ajudando uma mulher como esta que está passando a carregar as coisas…"

Santiago está em um dos intervalos do uso de crack e heroína e conversa com a reportagem enquanto penteio o cabelo longo – ele acabou de tomar banho em uma das ONGs locais.

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"A onda de US$ 15 ou US$ 20 de crack dura por volta de 2 ou 3 horas. É o tempo de quebrar um pedaço da pedra, fumar, depois fumar alguns cigarros, fumar um baseado, beber uma cerveja, e depois fumar outro trago e sentir aquela aceleração, uma sensação de calor, e você sente mais ou menos como se não pudesse pensar, mas você ainda pode se controlar", diz.

Sua droga preferida dos últimos anos é a heroína.

"Se eu não tiver, fico em abstinência. E eu odeio acordar e ter diarreia, não ser capaz de controlar meu vômito. É para aí que a heroína vai te levar. Eu preciso ter pelo menos uma dose para seguir em frente, se não estaria vomitando, com um cheiro ruim, e eu não gostaria que você me visse assim."

Tem vontade de recomeçar?

"Eu estou ficando cansado de ficar cansado. Eu sei que quando eu ficar limpo e sóbrio, não vou precisar olhar para trás, para isso. Vou deixar o passado e caminhar para frente", diz.

"Quero estudar computação gráfica, gestão de pequenos negócios e filosofia e atingir meus objetivos. Vou usar meus objetivos de curto prazo para ajudar meus objetivos de longo prazo de ser produtivo e bem-sucedido."

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