Consciência Negra: Do pelourinho à Igreja dos Pretos, o roteiro que reconta a história da maior cidade do Brasil

Apesar da presença tardia de africanos escravizados em relação à colônia, cidade possui territórios negros que foram enterrados pelo crescimento urbano

Por Vinícius Mendes - De São Paulo para a BBC News Brasil

O movimento de automóveis é intenso nas duas avenidas que cercam o Largo Sete de Setembro, na Sé, no centro de São Paulo. Um século e meio atrás, o local já não era tranquilo, mas por motivos bem diferentes.

O pelourinho de São Paulo, onde indígenas, africanos e afrodescendentes foram açoitados por seus senhores ao longo de dois séculos, ficava onde hoje estão um edifício disforme que puxa o ar enclausurado na linha do Metrô, jardins geridos pela prefeitura e sedes de bancos.

O local é um dos nove pontos de um roteiro turístico mensal que percorre o centro da capital paulista contando histórias de lugares importantes que foram enterrados pela renovação urbana constante da agora metrópole. Em novembro, mês da Consciência Negra, três roteiros seguidos serão feitos entre os dias 19, 20 e 21.

De acordo com o Departamento do Patrimônio Histórico da Cidade de São Paulo, o pelourinho foi posto ali em 1560 por ordem do governador-geral do Brasil, Mem de Sá, mas o historiador e escritor Afonso de Taunay, em seu História da Cidade de São Paulo (Secretaria Especial de Editoração e Publicação do Senado Federal, 2004) diz que, na verdade, ele só foi erguido na praça após o ano de 1586, quando tudo já funcionava em torno do Pátio do Colégio.

A instalação do pelourinho foi uma das intervenções feitas no território para que São Paulo recebesse o título de vila pela administração colonial portuguesa. Outras exigências foram a construção de uma cadeia comum – que funcionou até o século 18 no terreno ocupado atualmente pelo Fórum João Mendes – e de uma Câmara Municipal.

A inauguração de vilas pelo território da capitania paulista dependia tanto da concessão de alguns privilégios a determinados moradores locais pelo governador quanto da colocação dos troncos em que os condenados deveriam ser açoitados publicamente. Por isso, em cada nova vila reconhecida por Portugal, como Santos, por exemplo, invariavelmente havia um pelourinho.

Segundo Maria Fernanda Derntl, que estudou a organização territorial da capitania de São Paulo em sua tese de doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, as cerimônias de elevação de um local a vila incluíam festa de inauguração do pelourinho, grandes fogueiras acesas em praças e eventos para receber autoridades que pareciam paradas militares.

Em Portugal e suas colônias, o pelourinho era utilizado como um dos instrumentos de justiça local, assim como a cadeia e a forca. A regra era que fossem levantados nas praças centrais das vilas, ao lado do paço municipal, da prisão e da igreja, para a exposição pública dos condenados.

Na São Paulo do começo do século 16, em que a presença africana ainda era pequena, os açoitados geralmente eram indígenas. Porém, quando a escravidão se expandiu pela colônia e chegou à capitania paulista, os escravos africanos passaram a ser os mais castigados.

Roteiro histórico

Idealizado pelo jornalista Guilherme Soares Dias e pela profissional em relações públicas Luciana Paulino, o tour histórico existe há cinco meses e percorre desde construções que preservaram alguma memória africana da cidade, como a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, até espaços que foram suplantados pelo processo de crescimento da cidade, como o próprio Largo Sete de Setembro.

"Muitos lugares importantes para a história negra foram apagados e ressignificados. A nossa ideia é mostrar que o centro de São Paulo sempre teve uma presença negra muito grande e que há diversos monumentos, prédios e personagens dessa história que estão completamente esquecidos", explica Dias.

O roteiro teve início um mês antes de o governador Márcio França (PSB) autorizar a mudança do nome da estação Liberdade, na Linha 1 – Azul, do Metrô, para "Japão-Liberdade". À época, a decisão foi criticada por movimentos e coletivos negros a partir do argumento de que a região possui um passado mais ligado aos escravos africanos em São Paulo do que aos asiáticos que ali chegaram um século depois.

104305764foto1gruponaliberdade-f9073376785b1bab8b4fa3f4d48410d9.jpg

Era na Sé e na Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, que viviam escravos africanos da São Paulo da metade do século 18. À época, a vila possuía cerca de 30 mil habitantes, dos quais 7.000 eram escravos africanos.

Eles habitavam as senzalas das chácaras que, na época, eram a periferia paulistana. Nelas, mulheres eram encarregadas dos serviços domésticos e homens exerciam atividades variadas: da construção de casas ao plantio de pequenas lavouras.

A circulação de escravos na São Paulo daquela época, segundo a urbanista e professora da FAU-USP, Raquel Rolnik, desenhava um "fio invisível" ao redor das casas senhoriais, onde se constituiu uma espécie de sociedade paralela negra: lugares como a parte sul da Sé, o Largo da Forca, o paredão do Piques, a Várzea do Carmo, o Mercado do Acu e o tanque de Zunega.

"Esse fio invisível permanece até hoje em relação às territorialidades negras, porque há uma narrativa predominante de que, como a população preta e parda de São Paulo é majoritariamente de baixa renda, a segregação é apenas socioeconômica, como se não tivesse um componente étnico neste fenômeno", explica ela.

"Ao fazer isso, a cidade não apenas exclui a leitura étnica do processo de segregação. Mais do que isso: inviabiliza os territórios negros que são pontos de conexão, são ímãs presentes na comunidade negra", completa.

Segregação social

O tanque de Zunega era, na verdade, o lugar onde, no começo do século 18, as escravas negras batiam as roupas dos seus senhores às margens da lagoa Zunega, que foi aterrada para a construção do Largo do Paissandu décadas depois.

Foi perto dali – onde hoje está o edifício Altino Arantes – que, ainda no ano de 1725, os mesmos servos africanos tinham sido autorizados pela Igreja Católica a construírem a primeira capela de Nossa Senhora do Rosário – uma das divindades cristãs adotadas por negros de São Paulo.

O templo foi erguido porque, na época, seria o único que os escravos africanos poderiam frequentar em São Paulo, já que todas as outras igrejas eram restritas aos brancos. Alguns historiadores estimam que, na vila daquela época, alguns negros já estavam ligados a instituições religiosas paulistanas, como o Mosteiro de São Bento.

A atual Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, erguida no Paissandu tempos depois, voltou às manchetes da imprensa em maio deste ano, quando os sobreviventes do desmoronamento do antigo prédio da Polícia Federal e do INSS, o edifício Wilton Paes de Almeida, no quarteirão ao lado, usaram-na como abrigo provisório por algumas semanas.

O Mercado do Acu, por sua vez, era o lugar onde os escravos podiam encontrar ervas africanas para suas práticas religiosas nativas, além de frutas, legumes e outros utensílios, como sabão, nas margens de dois ribeirões que por ali passavam: o Anhangabaú e o Hyacuba.

Ele ficava dentro do território dado pela Câmara Municipal à família Cunha Gago e que hoje corresponderia a um grande pedaço de terra entre as avenidas São João e Ipiranga, o Largo de São Bento e a rua Beneficência Portuguesa.

O paredão do Piques, enfim, era o destino final dos tropeiros que chegavam a São Paulo com alimentos, animais e artesanatos de outras vilas da capitania para vender à população branca paulistana. Como não ficava tão longe do pelourinho, era um ponto estratégico para os comerciantes desovarem seus produtos e tomarem a estrada de volta no mesmo dia.

104305770foto23gruponoobeliscodopiquesguilhermesoaresemdestaque-c5704a050869968830768bf375d213a3.jpg

Uma ideia do que era o paredão pode ser observada hoje por quem sai do Terminal Bandeira, em frente à estação Anhangabaú, da Linha 3 – Vermelha, do Metrô, e sobe a rua Quirino de Andrade em direção à praça Ramos de Azevedo – passando invariavelmente pelo Obelisco do Piques, no alto de uma escadaria usualmente ocupada por moradores de rua.

Segundo Raquel Rolnik, esses lugares foram importantes ao longo dos séculos como pontos de concentração de negros em São Paulo. "O fio invisível de São Paulo era diferente dos rígidos espaços dos guetos dos Estados Unidos. Foi necessário fazer essa diferenciação porque, na literatura acadêmica brasileira, há uma negação constante dos guetos, como se não houvesse etnicidade na cidade. Não tinha gueto, mas tinha racismo – não à toa os territórios negros foram invisibilizados", diz.

"Curiosamente, o centro de São Paulo segue sendo habitado por negros pobres. Com os movimentos de gentrificação da cidade, a maior parte deles mora na rua. É uma população de quase 100 mil pessoas, sendo mais de 70% formada por negros", ressalta o guia Guilherme Soares Dias.

Três horas de caminhada

O trajeto elaborado por ele e Luciana dura em torno de três horas e, além de percorrer lugares que ajudam a contar a história da presença africana em São Paulo no período escravocrata, também relata feitos de negros como Joaquim Pinto de Oliveira Tebas, que, mesmo servo do português Bento de Oliveira Lima por 57 anos, se tornou um dos principais arquitetos da cidade durante o século 18 – ele ornou as fachadas do Mosteiro de São Bento, da Ordem Terceira do Carmo e da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco com pedras de cantaria e projetou a torre da primeira Matriz da Sé, na década de 1750.

Entre os pontos de parada do tour estão a Igreja Nossa Senhora dos Enforcados e o Morro da Forca, na Liberdade, a Ladeira da Memória, a rua Sete de Abril, a Galeria do Reggae – onde há uma aproximação com o movimento negro da cidade hoje – e pelo largo do Arouche, onde se situa o monumento ao advogado e jornalista abolicionista Luiz Gama. Ali, aos domingos, migrantes nigerianos e camaroneses costumam se encontrar.

104306457foto21gruponoviadutonovedejulho-1cd80ab782702354e79ec15dd088b983.jpg

Bianca Freire-Medeiros, professora do Departamento de Sociologia da USP e autora do livro Gringo na Laje (Editora FGV, 2009), sobre visitas turísticas à favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, avalia que roteiros como este demonstram outras potencialidades de produtos turísticos. "Eles podem servir como denúncia, conscientização, visibilização ou mesmo como um projeto político de uma população que quer contar sua história."

A francesa Marie Reine-Adelaide, que chegou a São Paulo há um mês para trabalhar no Consulado do seu país, conta que se interessou pelo roteiro porque ainda não conseguiu compreender o lugar do negro na cidade. "Vou a restaurantes em Pinheiros, ando pela avenida Paulista após o trabalho, faço compras na Consolação, e quase não vejo pessoas negras. Em um país com tantos séculos de escravidão, comecei a achar estranho. Em Paris não é assim: a questão lá é mais classe do que cor da pele", comenta.

Segundo ela, algumas semanas depois de chegar ao edifício onde mora, no centro, foi orientada por um vizinho a usar o elevador de serviço. "Só entendi depois que ele tinha me confundido com uma empregada. Essa coisa de elevador de serviço não exista na França."

O negro em São Paulo

O sociólogo brasileiro Florestan Fernandes e seu ex-aluno francês Roger Bastide afirmam em O Negro no Mundo dos Brancos (Difusão Européia do Livro, 1972) que os escravos africanos só chegaram em massa à capitania de São Paulo no ciclo da mineração, décadas depois de povoarem as grandes fazendas exportadoras de açúcar do Nordeste.

À época, os trabalhos domésticos e a exploração do ouro eram realizados por escravos indígenas capturados nas expedições bandeirantes, algo que mudaria no final do século 17, quando os negros passaram a chegar cada vez mais a São Paulo para substituir a população masculina nativa escrava e manter o ritmo da mineração.

"O trabalho escravo indígena não possuía condições para alimentar uma incipiente economia de troca em expansão. Para poderem competir com os brancos reinóis ou de outras regiões do país, os moradores brancos de São Paulo tiveram de aceitar as mudanças de seus hábitos tradicionais, permitindo inclusive a substituição do índio pelo negro", diz um trecho do livro.

A mudança se concluiu em 1758, quando Portugal decretou a liberdade definitiva dos índios, e, de acordo com os autores, foi fundamental para a revolução agrícola paulista posterior.

"A riqueza acumulada pelos paulistas objetivou-se principalmente numa volumosa escravidão, que precisou ser transferida para as localidades em que residiam os seus senhores. Daí resultou que uma lavoura de subsistência, em estagnação e imbricada numa tosca economia de troca, apenas parcialmente monetária, viu-se subitamente 'enriquecida"", finalizam.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

https://www.youtube.com/watch?v=1gFM-7FNNBI

https://www.youtube.com/watch?v=660qsQ7rfWE&t=1s

https://www.youtube.com/watch?v=4xcZQ9ufxfk

©
Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo