Eleições 2018: Bolsonaro x Haddad, as razões de quem vota

Lembranças de período de inclusão social e combate à esquerda pautam escolha de eleitores pelos dois candidatos que vão ao segundo turno.

Por Victor Uchôa - De Salvador para a BBC News Brasil

Ao chegar diante da urna eletrônica, neste domingo, a cirurgiã-dentista Daniela Rodrigues, de 33 anos, não vacilou nem por um segundo: para presidente, votou em Jair Bolsonaro (PSL). "A principal razão do meu voto foi por ele não ser corrupto. É honesto, transparente e tem coragem de encarar os desafios para uma mudança verdadeira no país", disse ela, que é baiana e vota em Salvador.

Em São Paulo, por sua vez, Iana Cossoy Paro digitou na urna com a mesma convicção, mas optou por Fernando Haddad (PT). "Ele tem experiência administrativa. Na minha cidade, no meu tempo de vida, pra mim nunca houve uma gestão como a dele, com ideias progressistas e respeito pelas pessoas. Além do seu trabalho como ministro da Educação, de democratização das universidades", afirmou a roteirista de 39 anos.

Abertas as urnas do primeiro turno, deu aquilo que já indicavam as pesquisas de intenção de voto: no dia 28 de outubro, eleitores terão que escolher entre Bolsonaro – que conquistou 46% dos votos válidos no 1º turno – e Haddad – que passou ao 2º turno com 29,3% da preferência dos eleitores.

Ou, visto de outra maneira, entre argumentos como os de Daniela e Iana.

"Bolsonaro é o único candidato da direita sendo conservador nos costumes e liberal na economia. Quando digo conservador nos costumes não significa retroceder no tempo, nem ser careta, refiro-me à (conter a) deterioração dos valores e da cultura, vinda dos governos anteriores e fruto do marxismo cultural", apontou Daniela.

Segundo a odontóloga, outra razão para ter votado em Bolsonaro é que ele seria o único capaz de derrotar o PT, legenda na qual já votou e diz se arrepender. "E ele também é a favor da redução da maioridade penal e contra a legalização do aborto, o material gay e a ideologia de gênero nas escolas infantis", lista ela, trazendo à tona expressões comuns entre os eleitores de seu candidato.

No mês que antecedeu o primeiro turno, todas as postagens de Daniela em seu perfil do Instagram foram de exaltação a Bolsonaro.

Instada a comentar sobre o posicionamento do candidato em relação às mulheres, ela rechaçou que o deputado federal seja misógino, atribuindo as acusações às "notícias sensacionalistas".

"A mídia mostra o que pagam pra ela falar", diz. E o que achou do movimento #EleNão, coordenado por mulheres e que levou milhares de pessoas às ruas contra Bolsonaro? "Foi encabeçado e divulgado pelos movimentos feministas, setores da esquerda e artistas com interesses pessoais na Lei Rouanet", afirmou.

Com voto diferente, Iana Cossoy Paro define sua escolha por Fernando Haddad como uma opção "pela civilidade frente à barbárie".

"Haddad sempre prezou pelo diálogo, e isso é muito importante num momento em que estamos ameaçados de não poder discutir democraticamente", diz ela, para quem uma eventual eleição de Bolsonaro seria como entregar o país ao fascismo.

"Do ponto de vista administrativo, Haddad teve uma gestão em São Paulo reconhecida internacionalmente. É só pesquisar pra ver. Melhorou a mobilidade dos trabalhadores, diminuiu as mortes no trânsito e criou uma secretaria de Direitos Humanos com atenção às pessoas", enumera.

Frente às acusações de corrupção envolvendo membros do PT, inclusive o candidato Fernando Haddad e o ex-presidente Lula, que foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá, a roteirista afirma que "existem acusações que procedem e outras que não procedem".

"Não tenho visão ingênua da política e sei que as acusações também não são ingênuas. Existem muitas mentiras e más intenções."

Em seguida, lembra de outro fator que pesou na sua escolha por Haddad: a candidata a vice-presidente, Manuela d'Ávila (PCdoB).

"Desde o golpe, em 2016, passamos a prestar atenção no cargo de vice, e a Manuela é uma mulher da minha geração, com ideias progressistas, especialmente em defesa das mulheres e de quem mais precisa. Isso pra mim foi importante", disse.

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Inclusão vs. segurança

A produtora cultural Patrícia Aro, de 37 anos, também cita a presença de Manuela d'Ávila na chapa como um dos motivos para votar em Haddad. "Minha primeira opção era o Ciro Gomes (PDT), mas com Kátia Abreu (PDT) de vice, não tinha condições", disse ela, citando a senadora pelo Tocantins.

Outra razão para definir o voto, conta Patrícia, foi o plano de Haddad para a Educação. Ela cursou Agronomia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) durante o período em que Haddad era ministro da Educação e revela ter sido beneficiária de programas implementados na gestão do candidato.

"Eu vivenciei o que é uma universidade inclusiva. Meu curso era de tempo integral, então era muito difícil trabalhar. Eu e meus colegas aproveitamos muito os programas de assistência estudantil para conseguirmos estudar com alguma tranquilidade. Nos últimos dois anos, os programas foram diminuídos e até extintos. Voltou a ser um modelo em que só se estuda se tiver dinheiro, mesmo numa universidade pública", diz.

Vivendo há cinco meses em Curitiba, onde o ex-presidente Lula está preso desde abril, Patrícia avalia que a capital paranaense foi inundada pela "onda anti-PT", mas mesmo assim o partido mantém boa representatividade.

"Fui em um ato com Haddad e estava muito cheio. E foi muito expressiva a participação das pessoas que estão na vigília por Lula, muita gente do campo. E quando se conversa com elas, a gente entende como o governo do PT transformou a vida dessas pessoas. Isso é inclusão, que conta para meu voto".

Morador de Balneário Camboriú (SC), o catarinense André Luiz Ferreira, de 59 anos, estará no lado oposto no segundo turno, como esteve no primeiro.

"A esquerda já teve sua chance no Brasil e no mundo e está desmoralizada. Pra mim, já vivemos numa ditadura de esquerda disfarçada, com uma censura pior que no período militar. Não se pode dizer mais nada", argumenta. "Bolsonaro é quem defende a verdadeira liberdade de expressão", opina o policial rodoviário aposentado.

Para ele, o candidato do PSL vai "restaurar o Brasil dos pontos de vista moral, intelectual e econômico, porque tem capacidade estratégica e defende o livre mercado".

Assim como a dentista Daniela Rodrigues, André Luiz Ferreira diz que as declarações de Bolsonaro são "deturpadas pela mídia". "Para dar a impressão de que ele é racista, homofóbico ou desrespeitoso", emenda. "Ele defende castração química de estuprador. Como é que ele pode ser contra mulher?"

Ao se lembrar do candidato a vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), Ferreira o define como um "homem culto e que estudou estratégias de segurança, que é o que mais precisamos". Para ele, isso demonstraria que Bolsonaro, se eleito, vai escolher seus assessores através de critérios técnicos.

"Não é questão de fanatismo. Talvez Bolsonaro não seja o melhor, mas é o menos pior com chance. Por isso voto nele. O Brasil está numa encruzilhada e não podemos correr o risco de entrar num processo de 'venezuelização"", afirmou, em referência ao país vizinho, cujo governo de Nicolás Maduro vive uma profunda crise.

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A questão da segurança pública também surge entre os motivos do administrador aposentado Rodrigo Rangel Pinto, de 66 anos, para votar em Jair Bolsonaro.

"A esquerda é permissiva, aí dizem que Bolsonaro é violento. Não é. Ele só quer que os bandidos sejam punidos. A turma dos Direitos Humanos liga mais pra bandido do que pra policial quando morre em serviço. Isso precisa mudar pra haver um equilíbrio", disse.

Dono de uma pousada numa praia litoral norte da Bahia, Rangel Pinto afirma que Fernando Haddad seria "mais do mesmo". No entanto, não acha que o termo se aplique a seu candidato, deputado federal há 28 anos.

"Voto pela alternância de poder. O PT já teve quatro eleições consecutivas e o país foi tomado pela corrupção. Não dá pra eleger o PT de novo."

Já o analista financeiro baiano Caio Cunha, de 26 anos, acha que se o critério de voto for a corrupção, "vamos ter que deixar todos de lado".

"E todo mundo sabe que, no governo do PT, a Polícia Federal e o Ministério Público ficaram bem mais livres para investigar do que antes e do que agora, depois do impeachment", observa.

"Sou um privilegiado. Sempre estudei em escola particular, sempre tive boa comida. Pra mim, a política tem que ser feita para equilibrar o jogo, tem que ser voltada para a população mais pobre, e isso aconteceu com o PT. Gosto das propostas de Haddad de taxação dos mais ricos e de reduzir imposto para o comércio e produtos, isso aumenta o poder de compra das pessoas mais pobres", afirma Caio.

Formado em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o analista também elogia o que chama de "democratização do ensino superior" feita por Fernando Haddad.

"Fiz o mesmo curso que meu pai fez há uns 20 anos, na mesma universidade, e convivi com pessoas de uma realidade diferente daquelas que meu pai conviveu. Pessoas mais pobres, negros, que antes não conseguiam, mas agora estão lá estudando. Aposto nisso quando voto em Haddad", conclui.

Visões distintas

Fábio Nascimento, de 44 anos, é servidor da prefeitura de Maragogipe, na região do Recôncavo Baiano. Em sua opinião, "a esquerda levou o país para a lama e foi uma roubalheira muito grande", o que é uma das razões para seu voto em Bolsonaro.

"Das outras opções, Ciro e Marina também são esquerdistas. Os outros não eram competitivos. Restou Bolsonaro, que eu gosto porque defende a tolerância zero com a criminalidade. Tem que ser duro mesmo. A violência está demais, nas capitais e no interior", disse ele, que se divide entre a cidade onde trabalha e Salvador.

Fábio acredita que Bolsonaro, caso chegue à presidência, vai combater privilégios da classe política, ainda que tenha usufruído do auxílio-moradia parlamentar tendo imóvel próprio em Brasília.

"Enquanto existe o privilégio, as pessoas usam. É fato. Era um direito que ele tinha. Mas ele vai acabar com isso", disse.

Ele compartilha da visão de outros eleitores de Bolsonaro de que "a mídia" distorce posicionamentos do deputado.

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"Sob pressão, às vezes a pessoa explode. Eu nunca chamei uma mulher de 'vagabunda', mas todo mundo tem vezes que sai do sério", afirmou.

O servidor público foi questionado pela reportagem sobre episódios em que opositores acusaram Jair Bolsonaro de ser homofóbico ou racista. Um dos casos ocorreu em 2011. Quando a cantora Preta Gil perguntou a Bolsonaro o que ele faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra, ele respondeu: "Eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu".

Após pensar um pouco, Fábio concluiu: "É, pode até ser que ele seja racista ou homofóbico. Mas o líder dele não está preso. Lula está preso. Nesse momento, eu prefiro um presidente que pode até ser homofóbico e racista, mas que não é ladrão".

"O PT roubou? Pode ter roubado. Todos os partidos roubam. Mas fazer o que o PT fez pelos mais pobres, nunca vi nenhum fazer. Eu voto no PT mesmo, voto em Haddad. Pode botar quem for aí, eu voto no PT", disse o pedreiro Nelson Santos de Jesus, 43 anos.

Vivendo há cerca de 20 anos em Salvador, mas nascido em Amargosa, a 230 km da capital baiana, Nelson afirma que sua vida e a de seus familiares mudou durante o governo do ex-presidente Lula, por isso a fidelidade à legenda, mesmo com as seguidas denúncias de corrupção e até a prisão de Lula.

"No interior, era tudo casa de taipa. Com Lula na presidência, não faltava trabalho. Com meu dinheiro, comprei terreno e construí uma casa pra minha mãe. Hoje minha velhinha tá lá no interior, confortável. E ainda fiz outra casa aqui em Salvador, onde meu filho mora. Nos outros governos, não lembro do pobre conseguir nada."

Nelson reconhece que seu volume de trabalho diminuiu muito já no governo Dilma Rousseff (PT), na origem da crise econômica na qual o Brasil ainda se encontra.

Entretanto, diz que, na sua realidade, a situação piorou após o impeachment. "Tiraram ela com a conversa de que ia melhorar, não vejo nada disso. Agora está pior. Vejo é gente desistindo de ir atrás de serviço", concluiu.

Com argumentos de um lado e de outro e um eleitorado polarizado, está aberto o campo para a disputa do segundo turno. O resultado será conhecido no dia 28.

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