"Colhíamos grama para minha mãe fritar com gordura", diz sobrevivente do Holocausto radicado no Brasil

Romeno Joshua Strul relembra à BBC Brasil vida em gueto com família durante 2ª Guerra Mundial.

Por Luis Barrucho - @luisbarrucho - Da BBC Brasil em Londres
"Colhíamos grama para minha mãe fritar com gordura", diz sobrevivente do Holocausto radicado no Brasil

O romeno Joshua Strul tinha oito anos quando sua infância foi abreviada.

Em outubro de 1941, tropas aliadas aos nazistas chegaram à cidade de Moinești, na Romênia, onde ele, seus pais e seis irmãos ─ todos judeus ─ viviam.

Em poucas horas, a família foi despojada de todos os seus bens.

"Até então, tinha uma infância feliz e tranquila. Estudávamos, íamos à sinagoga e brincávamos como todas as crianças. O convívio com os católicos era pacífico", recorda ele, atualmente com 85 anos, em entrevista por telefone à BBC Brasil.

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"Mas o nazismo ganhava força na Europa e, quando as tropas chegaram à cidade, não tardou para perdemos tudo", acrescenta.

Radicado em São Paulo desde a década de 1950, Strul é sobrevivente do Holocausto, como ficou conhecido o assassinato em massa de milhões de judeus, bem como homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová e outras minorias, durante a 2ª Guerra Mundial, a partir de um programa de extermínio sistemático patrocinado pelo partido nazista.

Foi o maior genocídio do século 20 – uma ferida aberta que o tempo ainda não curou. Isso talvez explique a riqueza de detalhes com que Strul ainda relata sua experiência, pontuada por um sotaque ainda carregado, apesar da idade avançada.

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"Meu pai tinha uma loja de cereais. Perdemos tudo. Nos tiraram o comércio e a nossa casa. Minha família, assim como todos os judeus da cidade, foi levada a uma cidade próxima, Bacău, onde nos confinaram em um gueto", diz.

99773524845c1bbf284b4560b153f5c684cd4ac1-0f0f1d3cbb80fc719e7b4de946d95ddd.jpg Joshua, seu pai, sua mãe e seis irmãos viviam em Moinești, na Romênia | Foto: Gui Christ / BBC

Fome

Ali todos os judeus viviam em barracas de madeira – cobertas com folhas de zinco. Privados de sua liberdade, eram obrigados a ostentar uma estrela amarela nas roupas como identificação.

"No verão, era insuportavelmente quente. No inverno, um frio glacial", conta.

A fome também era uma constante.

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"A migalha de pão significava a vida ou a morte. Colhíamos grama para minha mãe fritar com gordura de ganso. Foi assim que sobrevivemos", diz.

"Meu irmão caçula, no entanto, não conseguiu enfrentar as condições adversas e morreu aos dois anos."

'Providência divina'

Por uma "providência divina", como recorda Strul, a família não foi deportada para o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, um dos principais locais de extermínio de judeus durante a guerra.

Em 1944, a Romênia foi libertada por tropas soviéticas, mas o pesadelo ainda não tinha terminado.

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"Voltamos à nossa cidade-natal e nossa casa estava completamente depenada. Tudo nos foi roubado", lamenta.

Com muito esforço, a família reconstruiu pouco a pouco a vida que tinha antes da guerra.

Mas em 1947 os comunistas chegaram ao poder na Romênia. Propriedades particulares foram nacionalizadas e, de patrão, o pai de Strul se tornou empregado.

"Quando tentávamos recomeçar do zero, mais uma vez nos tiraram tudo."

Em 1950, a família decidiu fazer as malas para um Estado recém-fundado, Israel, já que um dos irmãos de Strul havia emigrado para o país quatro anos antes e lutado na guerra de independência.

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Mudança para o Brasil

Mas o futuro parecia mais promissor fora do Oriente Médio.

Por meio de um conhecido da família, que já havia se estabelecido no Brasil, os Strul embarcaram em um navio rumo a uma terra então totalmente desconhecida.

"Foi uma viagem longa, na 3ª classe do navio, porque a 4ª não existia", brinca Strul. "Chegamos com uma mão na frente e outras atrás, não falávamos a língua e conhecíamos muito poucas pessoas."

O recomeço foi difícil. Sem educação formal, Strul começou a trabalhar como ambulante, vendendo roupas porta em porta.

Anos depois, já estabelecido, abriu sua loja de móveis na Zona Norte de São Paulo, de onde tirou o sustento para criar seus quatro filhos ("todos com formação acadêmica", destaca). Strul também tem dez netos.

Hoje aposentado, vive com a esposa Manuela, de 74 anos (o casal se conheceu em um baile de Carnaval no Rio de Janeiro em 1969), vai à sinagoga pela manhã e dedica-se a manter viva a lembrança do Holocausto por meio de palestras em escolas e eventos.

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"Quero muito agradecer ao povo brasileiro por nos ter acolhido. Devo tudo a esse país. Amo este lugar."

Strul também diz ter tentado, por diversas maneiras, reaver a propriedade da família na Romênia, ainda sem sucesso.

"Há 20 anos, tento receber uma indenização, mas não consigo. Tenho até hoje a escritura da minha casa, mas minha casa continua confiscada".

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Memória

Todos os anos, no dia 27 de janeiro, a comunidade judaica celebra o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A data marca a libertação do maior campo de extermínio nazista, Auschwitz-Birkenau, por tropas soviéticas. No local, estima-se que mais de 1 milhão de pessoas, a maioria judeus, foram mortas.

No Brasil, a data será lembrada em evento promovido pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) e pela Congregação Israelita Paulista (CIP), no domingo, 28 de janeiro, na Sinagoga Etz Chaim em São Paulo.

No hall, acontecerá a exposição " Além do Dever – Diplomatas reconhecidos como Justos entre as Nações", produzida pelo Yad Vashem (Museu do Holocausto de Israel).

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é celebrado desde 2005, após uma resolução da ONU.

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